sábado, 16 de janeiro de 2016

Princesa pop: capítulo 9

   Acordei no dia seguinte sem noção de tempo e espaço. Parecia que ainda estava dentro de um sonho. Um sonho cor-de-rosa. Nele eu dançava com um príncipe inteligente, espirituoso, criativo, educado e... lindo. De repente, abri os olhos e vi a roupa preta que tinha usado na noite anterior. Voltei à realidade e me levantei depressa. Olhei as horas e fiquei surpresa ao constatar que era quase meio-dia! Na noite anterior, com tudo que tinha acontecido, e havia me esquecido de colocar o despertador para tocar... Mas eu não podia ter perdido a aula, estávamos no final do ano, eu tinha mil provas! Eu só esperava que a Lara tivesse inventado uma desculpa muito boa para cobrir a minha falta.
   Abri as cortina e vi que a chuva pairava sobre a cidade, deixando tudo cinza. Era assim também que eu estava me sentindo. Sem cor. Sem graça. Sem vida. Fiquei um tempo olhando pela janela, tentando lutar contra a tristeza que estava me invadindo, e então, em um ímpeto, liguei o computador.
   Respirei fundo e digitei "Fredy Prince" no Google. Imediatamente várias notícias surgiram. Escolhi a mais recente, que pelo visto acabara de ser publicada.


  Príncipes também levam fora!                                                                                                             
                                                                                                                                                                   
   O mega-astro Fredy Prince, conhecido como o "príncipe das adolescentes", teve uma desilusão amorosa em público na noite passada. Alguns dias atrás, ele deixou transparecer em suas redes sociais que tinha conhecido alguém especial. No entanto, a tal garota sumiu como que por encanto, e por isso ele fez uma súplica para que ela o encontrasse ontem, em um show de sua banda. Apesar de centenas de adolescentes terem lotado o local, a musa do galã não apareceu. Ainda de madrugada, ele escreveu uma mensagem no Facebook:                                   
   Pensei que você tivesse sentido o mesmo que eu. Mas agora sei que amores à primeira vista só existem nas minhas canções. Aquela princesa pop era apenas fruto da minha imaginação...            
   A mensagem foi logo apagada, mas já havia repercutido em todo o mundo virtual. Desse episódio só ficou uma certeza: o garoto não ficará triste por muito tempo... Não faltarão candidatas para ajudá-lo a curar o seu coração partido!                                                   





   Fiquei parada olhando para a tela, me sentindo mais vazia do que nunca. Abaixei a cabeça e me permiti ficar triste de verdade por alguns minutos. A minha madrasta, em compensação, devia estar bem feliz agora, por eu ter "acatado a ordem" dela. Suspirei ao imaginar como aquelas manchetes poderiam ser diferentes caso eu não tivesse lhe obedecido e lutado pelo meu amor.
   Meu amor. Aquelas palavras, ainda que ditas apenas em pensamento, me assustaram. Mas era exatamente aquilo. Em poucos dias, aquele menino tinha se tornado parte do meu mundo e mudado tudo, mas meu amor teria que ficar ali. Escondido no meu coração.
   Eu ainda estava na frente do meu computador, me contorcendo em autopiedade, quando a campainha tocou. Imaginei que seria a Lara, vindo direto da escola, provavelmente para saber o motivo da minha falta e para comentar os últimos acontecimentos. Eu não estava com vontade de conversar com ninguém, mas mesmo assim me arrastei até a porta, ainda de pijama. Porém, ao abrir, desejei poder voltar no tempo e nunca ter levantado. Era a última pessoa que eu queria ver naquele momento. O meu pai.
   - Filha - ele falou meio assustado, me olhando de cima a baixo. - Você está doente?
   Eu estava tão atônita que, em vez de pensar rápido e confirmar, dizer que estava morrendo de uma doença muito contagiosa e que, se fosse ele, iria embora correndo, apenas balancei a cabeça e falei que estava tudo bem.
   - Então é tudo verdade! - ele disse com uma expressão diferente. A preocupação substituída por censura.
   - O que é verdade? - perguntei, já na defensiva.
   Em vez de responder, ele entrou, fechou a porta e me estendeu um envelope, que só então percebi está na mão dele. Peguei, meio apreensiva, abri e vi que dentro havia várias fotos minhas, trabalhando como DJ.
   - Onde você arrumou isso? - perguntei só por perguntar.
   Eu sabia perfeitamente a resposta. Eram fotos de algumas festas em que eu havia tocado, que ficavam como portfólio no site da empresa de som do Rafa. Mas eu nunca imaginaria que p meu pai iria encontrar aquilo: ele era totalmente à moda antiga, mal sabia ligar o computador!
   - Elas foram deixadas na minha porta hoje cedo. Acho que por algum dos vizinhos, que não quis se identificar. Pela data, a última delas é de ontem à noite - Ele me mostrou uma foto em que eu realmente estava com a mesma roupa da noite anterior. Pelo visto tinha sido tirada no último minuto que eu tinha ficado na cabine de som do meu amigo.
 Eu sabia muito bem quem tinha tirado e também que não fora nenhum vizinho que tinha deixado na porta dele... Mas, antes que eu pudesse comentar qualquer coisa, ele falou: - Cintia, quero que você faça a sua mala agora. Você está indo comigo pra casa.
   - A minha casa é aqui - falei, fingindo uma calma que estava longe de sentir.
   - Não, não é - ele disse, tirando as fotos das minhas mãos antes mesmo que eu terminasse de olhar. - Por mais de um ano permiti que você ficasse aqui, porque sabia que você estava muito abalada com a separação, e não queria forçar a você a fazer nada, para não aumentar o seu sofrimento. Mas estou vendo que essa não foi a decisão correta. Eu nunca imaginaria que sua tia cobraria aluguel de você e que por isso você seria obrigada a trabalhar! Ainda mais à noite e em dias de semana! Não é de se admirar que não consiga se levantar de manhã para ir à escola!
   - Não tem aluguel nenhum! - gritei. - Eu faço esse trabalho porque eu gosto! Porque é a única coisa que me distrai dos meus problemas! - Apontei para ele enquanto falava a última palavra. - E ontem à noite eu apenas fui a um show! Não estava trabalhando! E sei perfeitamente quem tirou essas fotos!
   - Cintia, não importa quem as tirou e sim o que elas provam. Está na cara que você não sabe tomar conta de si mesma! Se ontem você não estava trabalhando por ter sido obrigada, é ainda pior! Faltou aula pra ficar dormindo, depois de ter ficado na balada a noite inteira? Onde estava a sua tia que permitiu uma coisa dessas? É óbvio que ela também não é responsável o suficiente para cuidar de você.
   - Como assim não sou responsável? - A porta se abriu, e, pela cara, a tia Helena estava pronta até para entrar em um ringue de luta livre, se precisasse. - Você não é bem-vindo aqui. Com licença por favor. - Ela abriu ainda mais a porta e fez sinal para o meu pai sair.
   Ele não disse nada, apenas tirou um papel dobrado de dentro do paletó e estendeu para ela, que leu, muito séria. Ao chegar ao final, ela falou:
   - O que isso quer dizer? Você acha que vou deixar a minha sobrinha ser arrastada para aquele covil de bruxas apenas porque um papel está dizendo? Pois você está muito enganado. - Ela amaçou a folha sem a menor cerimônia e o jogou no chão, o que fez o meu pai arregalar os olhos.
   - Ótimo - ele disse, com um sorriso irônico. - O juiz vai adorar saber que a minha ex-mulher, a quem ele deu a guarda da minha filha, a entregou para uma desequilibrada, sem o menor senso de responsabilidade, e que ainda por cima não respeita as leis. - Ele pegou o papel no chão e desamassou. - E sem a minha autorização, diga-se de passagem. Pois saiba, Helena, que isso é uma ordem judicial. Se a Cintia não ver por bem, vou chamar a polícia para obrigá-la a vir comigo. E, se você tentar impedir, pode acabar presa. A decisão é sua.
   - Eu vou - falei antes que a minha tia rebatesse, o que eu vi que estava prestes a fazer.
   - Mas, Cintia...
   Eu vou, tia Helena - interrompi. - Mais tarde eu converso com a minha mãe, ela vai arrumar uma solução.
   O meu pai riu, falou que a minha mãe não se preocupou comigo durante todo aquele tempo e que não seria agora que faria isso. Antes que a minha tia voasse em cima dele, pedi que me ajudasse a arrumar a mala, o que ela fez totalmente a contragosto. Peguei apenas o básico, pois não tinha a menor intenção de ficar por muito tempo na casa dele. A tia Helena perguntou se eu não ia levar o meu All Star de cartas de baralho, mas não vi sentido naquilo. Ele apenas me deixaria ainda mais triste.
   Eu me despedi da minha tia, que disse uma última vez que aquilo não ficaria assim, então entrei no carro do meu pai, que já estava me esperando com o motor ligado, e olhei uma última vez para aquela casa bagunçada que eu havia aprendido a chamar de lar.
 
 
 


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