Eu não precisava ter tido pressa. Assim que chegamos, a minha tia, que estava nos esperando na porta, disse que a banda só começaria a tocar à meia-noite, e que antes disso um DJ, que inclusive era da equipe do namorado dela, estava animando a festa.
- O Rafa está lá com ele, verificando uns equipamentos - ela disse, me cumprimentando. - E aqui está o seu disfarce.
Em seguida ela foi abraçar a mãe, e as duas começaram a conversar sobre as novidades. Antes de entrar na festa, ainda ouvi a minha mãe dizer que havia voltado definitivamente, e eu não podia imaginar felicidade maior! Quero dizer, podia...
Fiquei olhando para aquela máscara nas minhas mãos, meio emocionada por tudo que ela me lembrava. Então a coloquei no rosto, respirei fundo e entrei.
Fui andando, tentando encontrar a Lara, e sem querer passei pela cabine do DJ. O Rafa estava mesmo lá, e resolvi cumprimentá-lo.
- DJ Cinderela! - ele disse, sorrindo, assim que me viu. - Você está ainda mais bonita hoje! Acho que não vai gostar do que vou dizer, mas cores claras caem muito bem em você! Melhor que preto!
Dei um abraço nele, olhei para as picapes e de repente me senti meio triste. Eu sentia tanta falta daquilo! Daria tudo para estar no lugar daquele DJ!
- Com saudade de colocar todo mundo para dançar? - ele perguntou, acompanhando o meu olhar.
Apenas confirmei com a cabeça e dei um suspiro. O Rafa então se virou para o DJ que tinha contratado e eles ficaram um tempinho conversando. Um pouco depois ele se voltou para mim, sorriu e disse:
- Toma.
Fiquei olhando sem entender. Ele estava me estendendo o fone de ouvido que o DJ estava usando para fazer as mixagens.
- Não quer matar a saudade? - Ele franziu as sobrancelhas. - Pensei que você ia gostar de fazer isso até a hora de o show começar. Só faltam vinte minutos. Mas, se você não quiser, posso assumir. Dei uma folga para o meu amigo.
Dei um abraço tão apertado nele que quase quebrei o fone, que ficou entre nós. Expliquei onde minha tia e minha mãe estavam, e ele foi procurá-las. Então fiquei sozinha com a aparelhagem.
O meu coração até acelerou quando eu coloquei a primeira música e vi algumas pessoas correndo para a pista de dança. Deixei que o ritmo me envolvesse e mixei como havia muito não fazia. Eu não sabia o que ia acontecer dali para a frente, ou quando poderia fazer aquilo de novo, por isso aproveitei cada minuto. Enquanto o som rolava, dei uma olhada na set list que o DJ tinha preparado e, de repente, vi uma música que, se eu pudesse escolher só uma para colocar, seria aquela. Não perdi tempo. Em poucos segundos a música ecoou pelo salão. Vi que as pessoas gostaram e fiquei pensando se, do camarim, daria para ouvi-la. O Frederico já devia estar lá, pois em 15 minutos o show dele começaria...
Eu ainda estava pensando nisso quando ouvi uma voz atrás de mim.
- Você realmente gosta dessa música.
Senti o meu corpo gelar. Aquela voz. Eu a reconheceria em qualquer lugar. Virei devagar e lá estava ele. Com a máscara igual a minha, mas com a boca virada para baixo. Foi como se eu estivesse tendo um déjà-vu.
- Gosto - comecei a responder. - Ela me lembra de alguém... de quem eu gosto de lembrar.
Ele ficou me encarando por alguns segundos, e durante esse tempo senti novamente aquela sensação da primeira vez que nos encontramos. Um frio na barriga misturado com uma vontade de chegar mais perto.
Ele desviou o olhar do meu e me analisou de cima a baixo. Quando chegou aos meus pés e ele viu que eu estava de salto, falou:
- Você não veio de rainha de copas hoje.
Apenas balancei a cabeça, desejando estar com o meu vestido de cartas de baralho.
- Frederico, eu queria falar com você. - Criei coragem depressa, pois sabia que não havia muito tempo. - Eu vi seu recado nas redes sociais. Quero dizer, eu não sigo você, ou melhor, não seguia, mas a imprensa fez o maior estardalhaço e eu...
- Não precisa explicar - ele me cortou. - Na verdade, pensei que não veria você nunca mais. De vez em quando trago esta máscara para poder dar uma volta sem ser reconhecido. Foi assim naquela festa que a gente se conheceu. E hoje, na verdade, eu nem ia sair do camarim, e já estava me preparando para o show. Mas, de repente, comecei a escutar umas músicas que adoro, diferentes da que estavam tocando antes. Olhei de longe para cá e vi você... dançando neste seu ritmo pop.
O meu coração estava a 500km por hora. Tentei falar, mas a minha voz travou.
- Mas não vim aqui para tem cobrar nada, sei que a culpa foi minha. Você falou tudo da primeira vez. Que não gostava do Fredy Prince. Que achava o som dele cafona. Que ele enganava as meninas... Não foi isso? - Eu comecei a responder que tinha me arrependido de ter dito aquilo, mas ele me interrompeu. - Você estava certa. Eu sou romântico mesmo. Não me importo se você acha isso fora de moda. Falo a verdade nas minhas canções. Ou, pelo menos, falava. Eu acreditava que um dia a minha musa inspiradora iria aparecer... Alguém que se interessasse por mim não pelo fato de eu ser famoso, mas sim por alguma química, conjunção astral, afinidade ou algo do tipo. E quando vi você dançando naquele dia e percebi que nosso gosto musical era parecido... E depois que ouvi a sua voz, tive vontade de ficar ouvindo você falar a noite inteira, e então os nossos olhos se encontraram... senti um clima especial, algo diferente de tudo que já havia sentido. Sei lá. Pensei que tivesse sido recíproco. Mas viajei, era bobeira, coisa da minha cabeça. Os meus amigos mesmo já tinham me prevenido, eu é que não ouvi ninguém. Eles me avisaram que eu havia me encantado pela imagem que criei de você. Eu nem mesmo vi o seu rosto! Mas eles estavam certos, foi tudo minha imaginação.
- Não é nada disso! - Comecei a tirar a máscara, mas ela agarrou no meu cabelo. - Não foi culpa sua, nem imaginação!
- Está tudo bem - ele disse, dando um passo para trás. - Não precisa se explicar, sério. Claro que eu fiquei esperando que você aparecesse. E fiquei triste quando vi que isso não aconteceu. Confesso que me senti meio humilhado e até envergonhado pelo papel de palhaço que eu fiz. Mas superei.
Maldita máscara! Eu estava a ponto de arrumar uma tesoura para cortar o meu cabelo e soltá-la quando o Rafa chegou.
- Voltei, Cintia - ele falou, entrando na cabine. - Vai começar o show, faltam cinco minutos para meia-noite. Mas antes me pediram para desligar o som, pois vão passar um vídeo dos formandos.
Vi uma expressão diferente nos olhos do Frederico ao ouvir o meu nome verdadeiro pela primeira vez. Como não me movi, o Rafa continuou:
- Pode ir para a frente do palco. Sei que você está louca para dar uns gritinhos... - Então ele fez uma voz fininha, imitando uma fã desesperada, e começou a dizer: - Ô, Fredy Princeeeeeeee, cadê vocêêêê, eu vim aqui só pra te veeeer!
- Tenho que ir - O Frederico falou, já saindo.
- Espera. - Fui atrás dele. - O Rafa estava só brincando, porque sabe que eu... que eu quero muito falar com você. Quero dizer, com o Fredy. Ele não tem nem ideia de que você é ele. Mas o que eu queria falar é que sei que você está achando que sumi por desprezo, mas a verdade é que...
Naquele momento aparecei um cara de terno, bem alto e musculoso, que parecia ser um segurança, e falou que era melhor ele se apressar pois o show já ia começar. O Frederico então me olhou meio impaciente e falou:
- Eu já disse que estou bem, não precisa ficar com pena ou coisa parecida. Você foi só uma ilusão. Que eu já esqueci!
Então ele me lançou um último olhar e se virou. O segurança foi com ele até uma porta e então desapareceu por ela.
Voltei para a cabine de som, e assim que o Rafa me viu, falou:
- Eu disse alguma coisa errada! Por acaso aquele garoto é algum namorado seu? Porque, pelo que a sua tia me contou, eu pensei que você só pensasse no Fredy Prince. Por isso fiz aquela brincadeira...
- Não esquenta... - falei, agradecendo mentalmente o fato de estar de máscara, pois assim ele não veria a minha tristeza. - Não era ninguém importante.
O Rafa então me entregou uma sacola.
- A Helena pediu para entregar para você. Ela teve que resolver alguma coisa urgente, mas me fez prometer que isso chegaria às suas mãos. Ou melhor, aos seus pés. Ah, e sua mãe foi com ela.
Abri, curiosa, e lá dentro vi uma coisa que fez o meu coração revirar. Era o meu All Star. O que a minha tia havia pintado. O pé que tinha sobrado, pois provavelmente o Frederico tinha jogado o outro no lixo. Pensei seriamente em fazer o mesmo, mas aquela era a minha única lembrança de toda a história. Então, em vez de descartá-lo, tirei as sandálias que estava usando, deixei-as na cabine de som e calcei o tênis no meu pé direito, deixando o esquerdo descalço. Só ia ficar assim por um tempinho, mas aí vi a Lara no meio da multidão. Corri para perto dela, que me deu o maior abraço ao me ver.
- Estou te procurando há horas, onde você estava? - ela perguntou. - Vi o seu pai, a sua madrasta, as suas meias-irmãs, a sua tia, o namorado dela e até a sua mãe! Meu Deus, você não está explodindo de felicidade por ela estar aqui? Mas eu estava desesperada para encontrar com você, porque o show já vai começar! Aquela sua ideia tem que dar certo. Aposto que o Fredy Prince, ao ver essa máscara, vai se lembrar de você! E aí tenho certeza de que ele vai chamar você para dançar com ele no palco!
Passei a mão pela máscara. Não. Aquilo não ia adiantar. Já não havia adiantado. Ele não queria mais saber de mim! Por isso, eu me virei de costas para a Lara e pedi que ela me ajudasse a soltar o elástico do meu cabelo, pois estava me machucando. Com muito custo ela conseguiu desembaraçá-lo e livrá-lo da máscara.
No mesmo instante, um apresentador subiu ao palco e pediu que todos os formandos se aproximassem, pois queria chamar ao palco o talentoso Fredy Prince, para que ele pudesse nos dizer umas palavras antes do show começar.
- Cintia, coloca de novo a máscara, depressa!
Apenas dei de ombros e falei que aquilo não importava mais. Foi quando o Frederico subiu ao palco. E aí não consegui escutar mais nada. A gritaria era tanta que o apresentador teve que pedir silêncio umas três vezes antes de ser atendido.
Ele então passou o microfone para o Fredy, que agradeceu o convite feito pela nossa turma, disse que era uma honra tocar em uma ocasião tão importante e desejou boa sorte a todos nós na nova etapa das nossas vidas. O meu coração apertou e senti os meus olhos cheios de lágrimas ao pensar que tudo poderia ser bem diferente... Agora eu não passava de mais uma fã no meio de tantas outras. Em pouco tempo, ele nem se lembraria mais da minha existência.
O apresentador convidou o Fredy Prince para ver um vídeo que a escola havia feito. Os dois recuaram um pouco, as luzes se apagaram, e então o vídeo começou. Era uma montagem com a foto de todos os alunos do terceiro ano. O nome da criança aparecia e na sequência surgiam uma foto de quando era criança e outra, atual. Em seguida um holofote focalizava o aluno no meio da plateia, que era aplaudido por todos. Então era por isso que solicitaram que fôssemos para a frente...
Como a apresentação era em ordem alfabética, o meu nome foi um dos primeiros a aparecer. Vi no telão uma foto minha com 7 anos de idade, com uma coroa de princesa na cabeça. Que ironia... Em seguida, apareceu uma que tinham tirado sem que eu percebesse, na sala de aula, provavelmente na semana anterior, com um olhar meio triste e parecendo meio pensativa... Antes que eu pudesse lembrar o que estava pensando naquele momento, um feixe de luz me focalizou, e ouvi vários aplausos. A Lara e alguns outros colegas me abraçaram e sorri, até me lembrar de um pequeno detalhe... Agora o meu pai saberia que eu tinha fugido do castigo e estava ali. E se ele me obrigasse a ir embora? Virei de um lado para o outro, tentando ver se ele estava por perto, mas o meu olhar foi atraído para o palco mais um vez. Para alguém no palco. Alguém que estava me olhando fixamente...
E então percebi que aquela era a primeira vez que ele me via sem a máscara... e que, pelo jeito, não tinha gostado, pois rapidamente tornou a olhar para a tela.
Quando todas as fotos terminaram de passar, o salão de festas explodiu em aplausos, e o apresentador pegou o microfone para anunciar os outro integrantes da banda. De repente o telão, que já estava desligado, começou a piscar. A minha primeira impressão foi que era um curto-circuito. Vi que mais pessoas pensaram o mesmo, e um pequeno tumulto começou a se formar, até que o telão piscou mais uma vez e um desenho apareceu. Todo mundo começou a rir, comentando que devia ser só uma surpresa para os alunos, mas de cara percebi que a intenção era surpreender apenas um pessoa... Porque eu conhecia perfeitamente aqueles traços. Sabia muito bem quem era a desenhista responsável. Ainda mais porque, logo na primeira cena, vi a imagem de uma menina calçando tênis cheios de cartas de baralho e notas musicais. Exatamente como o que eu estava usando naquele momento. Então era essa a animação na qual a minha tia estava trabalhando durante a semana! E era essa a missão urgente que ela e a minha mãe precisavam fazer... Convencer alguém a exibir aquele vídeo.
Pouco a pouco, a tela foi mostrando a minha vida desde o momento da separação dos meus pais. Como se fossem quadrinhos em preto e branco, a animação contava a história de uma princesinha que, em vez de sapato alto, usava All Star, pois seus pés doíam muito se calçasse outro tipo de sapato. Um dia, ela conheceu um príncipe. E a vida dela ficou colorida. E, a partir daí, o filminho também ganhou cores e explicou tudo que eu gostaria de ter explicado para o Fredy e não havia conseguido. E também que, além de devolver a cor para a vida dela, ele também havia trazido ritmo para o seu coração, que costumava bater descompassado. O vídeo terminava com a princesa segurando um pé de All Star na casa dela, olhando triste pela janela, e o príncipe segurando o outro pé, olhando para a tela do computador, parecendo meio solitário...
E então o telão foi escurecendo gradualmente até que ficou totalmente preto.
Todo mundo ficou esperando mais, meio sem entender. Quando o apresentador viu que era só aquilo, chamou depressa a banda. O Fredy, apesar de parecer meio atordoado, nem mesmo olhou na minha direção. Um pouco depois, a minha tia e a minha mãe apareceram do meu lado.
- Não sei o que vocês fizeram para que as pessoas da comissão da formatura concordassem em exibir essa história de final infeliz... Mas acho que valeu a pena, porque eu entendi o significado - falei para elas, meio triste. - É que, se eu não parar de ficar olhando pela janela em vez de viver, nunca vou ser feliz. Não é isso?
As duas se entreolharam com as testas franzidas. A minha tia disse que eu tinha entendido tudo errado, e a minha mãe disse que a única coisa que tiveram que falar para a comissão é que queriam contar o começo de uma história que teria um final feliz naquela noite, para que ninguém ficasse "boiando" na hora.
Comecei a falar que não ia ter nenhum final feliz, mas, naquele momento, a banda começou a tocar. As duas falaram que iam ver o show de longe, pois não tinham mais idade para aquela gritaria toda.
Mais uma vez, o meu coração bateu forte, mas agora eram batidas tristes. Resolvi que queria ir embora. Ver aquilo era tortura. Então me despedi da Lara, disse que no dia seguinte explicaria tudo, e me virei para procurar minha mãe. Ia ser bem difícil, porque a festa estava lotada. Porém, eu não tinha dado nem dois passos quando ouvi o Frederico dizer:
- Eu sempre faço essa parte do show mais para o final, mas acho que hoje vou ter que adiantar. Porque a garota com quem eu gostaria de dançar tem uma estranha tendência a desaparecer de repente...Então prefiro chamá-la agora, enquanto ela está bem na minha frente.
Congelei no lugar que estava, sem ter coragem de me virar. Será que ele estava falando de...
- Até hoje eu não sabia o nome dela. Por isso a chamava por vários apelidos... DJ Cinderela. Rainha de Copas. E o meu preferido, que acho que não conseguirei me desacostumar, pois é exatamente isso que ela é: uma princesa. Uma princesa que adora música pop. E eu também não conhecia o rosto dela. Pelo menos achei que não... Mas há poucos minutos constatei que era exatamente como eu a via nos meus sonhos. Então eu gostaria, Cintia, minha princesa pop, que você subisse ao palco, e me desse a honra desta dança.
Continuei parada, mas a Lara começou a me empurrar para que eu subisse logo. Quando as minhas colegas perceberam que era de mim que ele estava falando, começaram a dar gritinhos e a me empurrar também. Embora eu estivesse roxa de vergonha, sabia que não ia haver uma terceira chance. Então subi. Ele abriu o maior sorriso, colocou as mãos na minha cintura, mas, antes que a banda começasse a tocar, ouvi uma voz na multidão. Aquela mesma voz de bruxa, que parecia ter sido inventada para estragar os meus melhores sonhos.
- Parem! Ela não vai dançar!
Eu me afastei para olhar, mas o Fredy continuou me segurando.
- A Cintia está de castigo - ela gritou ainda mais alto. - Foi proibida pelo pai de sair de casa e desobedeceu!
Ninguém se mexeu, e ela então foi andando em direção ao palco. Quando começou a subir as escadas, dois seguranças a impediram.
- Saiam da frente, seus inúteis! Ela é minha filha e tem que fazer o que eu mandar!
Eles pareceram meio em dúvida e começaram a se afastar, mas no segundo seguinte ouvi outra pessoa, chegando cada vez mais perto, mas dessa vez era alguém cuja voz tinha o poder de me tranquilizar mesmo nos piores pesadelos.
- Sua filha? Ou a sua enteada, que você devia tratar muito bem, mas que, pelo contrário, prendeu em um quarto mofado e imundo? Já não bastava roubar meu marido, agora está querendo a minha filha também? Mas saiba que a Cintia é muito mais esperta que o meu ex. Ela não se deixa enganar assim tão fácil.
Parecia que a minha madrasta tinha visto um fantasma. Primeiro ficou branca, depois vermelha, depois verde... A impressão é que ela estava querendo cavar um buraco no chão para fugir dali. As pessoas estavam extasiadas, como se estivessem assistindo uma peça teatral. Porém, de repente, ela recuperou o rebolado, empinou o nariz e falou:
- Então você a considera esperta, né? Pois saiba que o pai dela só a colocou em castigo porque ela ficou em recuperação em duas matérias!
Novo burburinho de vozes foi ouvido, mas um se destacou da multidão.
- A Cintia é uma das melhores alunas do terceiro ano. Ela estuda na nossa escola desde pequena. Confesso que fiquei meio preocupada, após a separação dos pais, por ela ter entrado em uma fase meio introspectiva, usando roupas escuras e se isolando... Mas em nenhum momento isso afetou os estudos Posso confirmar que a Cintia passou com notas bem acima da média e que certamente se dará bem no vestibular!
Olhei para a minha diretora, com vontade de abraçá-la. E pensar que eu sempre havia achado que ela não gostava de mim. No entanto, ela estava apenas preocupada.
Depois disso, a minha madrasta foi saindo de fininho, mas ainda consegui ver o meu pai tendo a maior discussão com ela, provavelmente querendo que ela se explicasse sobre tudo o que tinha ramado para cima de mim.
- Alguém quer dizer mais alguma coisa? - o Frederico perguntou para a plateia, com um ar divertido, e a atenção de todos se voltou para o palco. - Porque por mim, tudo bem, posso esperar a noite inteira. Mas acho que a Cintia deve estar meio desconfortável aqui de pé, usando salto. Pelo que entendi na historinha que passaram, ela não gosta muito de sapato alto. E eu realmente gostaria de dançar enquanto ela ainda consegue se locomover!
As pessoas riram, e então levantei um pouquinho a barra do vestido e falei só para ele:
- Na verdade, eu dei um jeitinho... Pena que estou sem o outro pé do sapato. Eu o perdi em um baile, e o príncipe que o encontrou nunca mais o devolveu para mim.
Ele então deu um sorriso ainda mais lindo, pediu licença, foi atrás do palco e em poucos segundos voltou com o meu outro All Star.
- Mas você sabia que eu ia estar aqui na festa? -perguntei, meio confusa. - Até duas horas atrás, nem eu mesma sabia que viria!
- A minha produção recebeu um telefonema anônimo, falando que a garota que eu procurava estaria aqui...
Passei os olhos pela multidão e vi que a minha tia fez um sinal de positivo para mim. Sorri para ela, sem parar de prestar atenção no que o Fredy estava dizendo.
- A princípio achei que fosse um trote... mas, como eu ainda estava com o sapato, pensei que não faria mal trazê-lo... Posso ajudar a calçá-lo?
Ele se ajoelhou e colocou o tênis no meu pé esquerdo, subi um pouco mais a barra do vestido para ver o par reunido. O Fredy então se levantou e perguntou:
- Dança comigo?
A plateia veio abaixo. Eu apenas sorri e passei os meus braços pelo ombro dele, que então olhou para a banda e sussurrou:
- Aquela.
Em seguida ele me puxou para mais perto, nós começamos a dançar a "nossa" música, a que eu havia colocado poucos minutos antes e que o havia atraído para a cabine de som, aquela que, independentemente do que acontecesse, sempre iria fazer com que nos lembrássemos um do outro.
- Você sabe que eu não vou deixar você fugir nunca mais... - ele falou no meu ouvido, enquanto dançávamos.
- É bom mesmo... - respondi. - Porque parece que finalmente o meu coração está batendo no ritmo certo.
- Pop? - perguntou, rindo. Confirmei, e ele me abraçou mais forte. Depois de um tempo ele me olhou, passou a mão pelo meu cabelo e falou: - Será que a pessoa que desenhou aquela historinha triste que passaram no telão podia reescrever o final?
- E como seria um final melhor? - perguntei.
Ele então sorriu, se aproximou bem devagar e me deu um longo beijo.
Tive que concordar com ele. Aquele final era muito melhor...
E viveram felizes para sempre...
Hoje de manhã Fredy Prince anunciou que não vai mais fazer a turnê internacional que vinha planejando. Por coincidência, na última sexta-feira ele finalmente encontrou, em um festa, a sua princesa misteriosa. A garota, que se chama Cintia Dorella, se revelou ser uma DJ, e agora todas as celebridades querem contratá-la para os seus eventos. Ela, porém, fechou um contrato exclusivo, por tempo indeterminado, para abrir todos os shows do Fredy Prince em sua nova turnê pelo país. Segundo cantor, essa foi a forma que ele conseguiu para que ela não desaparecesse mais. Cintia, por sua vez, disse que não tinha intenção nenhuma de fugir de novo e que estava muito feliz por poder trabalhar ao lado dele. Os dois continuam insistindo que são apenas bons amigos, mas a nova música de Fredy Prince diz o contrário: "Princesa Pop" fala sobre uma menina cheia de ritmo que balançou o coração de um príncipe. Já ouviu isso em algum lugar? Nós também. Só torcemos para que essa história tenha um final feliz. Alguém duvida?
O meu coração estava a 500km por hora. Tentei falar, mas a minha voz travou.
- Mas não vim aqui para tem cobrar nada, sei que a culpa foi minha. Você falou tudo da primeira vez. Que não gostava do Fredy Prince. Que achava o som dele cafona. Que ele enganava as meninas... Não foi isso? - Eu comecei a responder que tinha me arrependido de ter dito aquilo, mas ele me interrompeu. - Você estava certa. Eu sou romântico mesmo. Não me importo se você acha isso fora de moda. Falo a verdade nas minhas canções. Ou, pelo menos, falava. Eu acreditava que um dia a minha musa inspiradora iria aparecer... Alguém que se interessasse por mim não pelo fato de eu ser famoso, mas sim por alguma química, conjunção astral, afinidade ou algo do tipo. E quando vi você dançando naquele dia e percebi que nosso gosto musical era parecido... E depois que ouvi a sua voz, tive vontade de ficar ouvindo você falar a noite inteira, e então os nossos olhos se encontraram... senti um clima especial, algo diferente de tudo que já havia sentido. Sei lá. Pensei que tivesse sido recíproco. Mas viajei, era bobeira, coisa da minha cabeça. Os meus amigos mesmo já tinham me prevenido, eu é que não ouvi ninguém. Eles me avisaram que eu havia me encantado pela imagem que criei de você. Eu nem mesmo vi o seu rosto! Mas eles estavam certos, foi tudo minha imaginação.
- Não é nada disso! - Comecei a tirar a máscara, mas ela agarrou no meu cabelo. - Não foi culpa sua, nem imaginação!
- Está tudo bem - ele disse, dando um passo para trás. - Não precisa se explicar, sério. Claro que eu fiquei esperando que você aparecesse. E fiquei triste quando vi que isso não aconteceu. Confesso que me senti meio humilhado e até envergonhado pelo papel de palhaço que eu fiz. Mas superei.
Maldita máscara! Eu estava a ponto de arrumar uma tesoura para cortar o meu cabelo e soltá-la quando o Rafa chegou.
- Voltei, Cintia - ele falou, entrando na cabine. - Vai começar o show, faltam cinco minutos para meia-noite. Mas antes me pediram para desligar o som, pois vão passar um vídeo dos formandos.
Vi uma expressão diferente nos olhos do Frederico ao ouvir o meu nome verdadeiro pela primeira vez. Como não me movi, o Rafa continuou:
- Pode ir para a frente do palco. Sei que você está louca para dar uns gritinhos... - Então ele fez uma voz fininha, imitando uma fã desesperada, e começou a dizer: - Ô, Fredy Princeeeeeeee, cadê vocêêêê, eu vim aqui só pra te veeeer!
- Tenho que ir - O Frederico falou, já saindo.
- Espera. - Fui atrás dele. - O Rafa estava só brincando, porque sabe que eu... que eu quero muito falar com você. Quero dizer, com o Fredy. Ele não tem nem ideia de que você é ele. Mas o que eu queria falar é que sei que você está achando que sumi por desprezo, mas a verdade é que...
Naquele momento aparecei um cara de terno, bem alto e musculoso, que parecia ser um segurança, e falou que era melhor ele se apressar pois o show já ia começar. O Frederico então me olhou meio impaciente e falou:
- Eu já disse que estou bem, não precisa ficar com pena ou coisa parecida. Você foi só uma ilusão. Que eu já esqueci!
Então ele me lançou um último olhar e se virou. O segurança foi com ele até uma porta e então desapareceu por ela.
Voltei para a cabine de som, e assim que o Rafa me viu, falou:
- Eu disse alguma coisa errada! Por acaso aquele garoto é algum namorado seu? Porque, pelo que a sua tia me contou, eu pensei que você só pensasse no Fredy Prince. Por isso fiz aquela brincadeira...
- Não esquenta... - falei, agradecendo mentalmente o fato de estar de máscara, pois assim ele não veria a minha tristeza. - Não era ninguém importante.
O Rafa então me entregou uma sacola.
- A Helena pediu para entregar para você. Ela teve que resolver alguma coisa urgente, mas me fez prometer que isso chegaria às suas mãos. Ou melhor, aos seus pés. Ah, e sua mãe foi com ela.
Abri, curiosa, e lá dentro vi uma coisa que fez o meu coração revirar. Era o meu All Star. O que a minha tia havia pintado. O pé que tinha sobrado, pois provavelmente o Frederico tinha jogado o outro no lixo. Pensei seriamente em fazer o mesmo, mas aquela era a minha única lembrança de toda a história. Então, em vez de descartá-lo, tirei as sandálias que estava usando, deixei-as na cabine de som e calcei o tênis no meu pé direito, deixando o esquerdo descalço. Só ia ficar assim por um tempinho, mas aí vi a Lara no meio da multidão. Corri para perto dela, que me deu o maior abraço ao me ver.
- Estou te procurando há horas, onde você estava? - ela perguntou. - Vi o seu pai, a sua madrasta, as suas meias-irmãs, a sua tia, o namorado dela e até a sua mãe! Meu Deus, você não está explodindo de felicidade por ela estar aqui? Mas eu estava desesperada para encontrar com você, porque o show já vai começar! Aquela sua ideia tem que dar certo. Aposto que o Fredy Prince, ao ver essa máscara, vai se lembrar de você! E aí tenho certeza de que ele vai chamar você para dançar com ele no palco!
Passei a mão pela máscara. Não. Aquilo não ia adiantar. Já não havia adiantado. Ele não queria mais saber de mim! Por isso, eu me virei de costas para a Lara e pedi que ela me ajudasse a soltar o elástico do meu cabelo, pois estava me machucando. Com muito custo ela conseguiu desembaraçá-lo e livrá-lo da máscara.
No mesmo instante, um apresentador subiu ao palco e pediu que todos os formandos se aproximassem, pois queria chamar ao palco o talentoso Fredy Prince, para que ele pudesse nos dizer umas palavras antes do show começar.
- Cintia, coloca de novo a máscara, depressa!
Apenas dei de ombros e falei que aquilo não importava mais. Foi quando o Frederico subiu ao palco. E aí não consegui escutar mais nada. A gritaria era tanta que o apresentador teve que pedir silêncio umas três vezes antes de ser atendido.
Ele então passou o microfone para o Fredy, que agradeceu o convite feito pela nossa turma, disse que era uma honra tocar em uma ocasião tão importante e desejou boa sorte a todos nós na nova etapa das nossas vidas. O meu coração apertou e senti os meus olhos cheios de lágrimas ao pensar que tudo poderia ser bem diferente... Agora eu não passava de mais uma fã no meio de tantas outras. Em pouco tempo, ele nem se lembraria mais da minha existência.
O apresentador convidou o Fredy Prince para ver um vídeo que a escola havia feito. Os dois recuaram um pouco, as luzes se apagaram, e então o vídeo começou. Era uma montagem com a foto de todos os alunos do terceiro ano. O nome da criança aparecia e na sequência surgiam uma foto de quando era criança e outra, atual. Em seguida um holofote focalizava o aluno no meio da plateia, que era aplaudido por todos. Então era por isso que solicitaram que fôssemos para a frente...
Como a apresentação era em ordem alfabética, o meu nome foi um dos primeiros a aparecer. Vi no telão uma foto minha com 7 anos de idade, com uma coroa de princesa na cabeça. Que ironia... Em seguida, apareceu uma que tinham tirado sem que eu percebesse, na sala de aula, provavelmente na semana anterior, com um olhar meio triste e parecendo meio pensativa... Antes que eu pudesse lembrar o que estava pensando naquele momento, um feixe de luz me focalizou, e ouvi vários aplausos. A Lara e alguns outros colegas me abraçaram e sorri, até me lembrar de um pequeno detalhe... Agora o meu pai saberia que eu tinha fugido do castigo e estava ali. E se ele me obrigasse a ir embora? Virei de um lado para o outro, tentando ver se ele estava por perto, mas o meu olhar foi atraído para o palco mais um vez. Para alguém no palco. Alguém que estava me olhando fixamente...
E então percebi que aquela era a primeira vez que ele me via sem a máscara... e que, pelo jeito, não tinha gostado, pois rapidamente tornou a olhar para a tela.
Quando todas as fotos terminaram de passar, o salão de festas explodiu em aplausos, e o apresentador pegou o microfone para anunciar os outro integrantes da banda. De repente o telão, que já estava desligado, começou a piscar. A minha primeira impressão foi que era um curto-circuito. Vi que mais pessoas pensaram o mesmo, e um pequeno tumulto começou a se formar, até que o telão piscou mais uma vez e um desenho apareceu. Todo mundo começou a rir, comentando que devia ser só uma surpresa para os alunos, mas de cara percebi que a intenção era surpreender apenas um pessoa... Porque eu conhecia perfeitamente aqueles traços. Sabia muito bem quem era a desenhista responsável. Ainda mais porque, logo na primeira cena, vi a imagem de uma menina calçando tênis cheios de cartas de baralho e notas musicais. Exatamente como o que eu estava usando naquele momento. Então era essa a animação na qual a minha tia estava trabalhando durante a semana! E era essa a missão urgente que ela e a minha mãe precisavam fazer... Convencer alguém a exibir aquele vídeo.
Pouco a pouco, a tela foi mostrando a minha vida desde o momento da separação dos meus pais. Como se fossem quadrinhos em preto e branco, a animação contava a história de uma princesinha que, em vez de sapato alto, usava All Star, pois seus pés doíam muito se calçasse outro tipo de sapato. Um dia, ela conheceu um príncipe. E a vida dela ficou colorida. E, a partir daí, o filminho também ganhou cores e explicou tudo que eu gostaria de ter explicado para o Fredy e não havia conseguido. E também que, além de devolver a cor para a vida dela, ele também havia trazido ritmo para o seu coração, que costumava bater descompassado. O vídeo terminava com a princesa segurando um pé de All Star na casa dela, olhando triste pela janela, e o príncipe segurando o outro pé, olhando para a tela do computador, parecendo meio solitário...
E então o telão foi escurecendo gradualmente até que ficou totalmente preto.
Todo mundo ficou esperando mais, meio sem entender. Quando o apresentador viu que era só aquilo, chamou depressa a banda. O Fredy, apesar de parecer meio atordoado, nem mesmo olhou na minha direção. Um pouco depois, a minha tia e a minha mãe apareceram do meu lado.
- Não sei o que vocês fizeram para que as pessoas da comissão da formatura concordassem em exibir essa história de final infeliz... Mas acho que valeu a pena, porque eu entendi o significado - falei para elas, meio triste. - É que, se eu não parar de ficar olhando pela janela em vez de viver, nunca vou ser feliz. Não é isso?
As duas se entreolharam com as testas franzidas. A minha tia disse que eu tinha entendido tudo errado, e a minha mãe disse que a única coisa que tiveram que falar para a comissão é que queriam contar o começo de uma história que teria um final feliz naquela noite, para que ninguém ficasse "boiando" na hora.
Comecei a falar que não ia ter nenhum final feliz, mas, naquele momento, a banda começou a tocar. As duas falaram que iam ver o show de longe, pois não tinham mais idade para aquela gritaria toda.
Mais uma vez, o meu coração bateu forte, mas agora eram batidas tristes. Resolvi que queria ir embora. Ver aquilo era tortura. Então me despedi da Lara, disse que no dia seguinte explicaria tudo, e me virei para procurar minha mãe. Ia ser bem difícil, porque a festa estava lotada. Porém, eu não tinha dado nem dois passos quando ouvi o Frederico dizer:
- Eu sempre faço essa parte do show mais para o final, mas acho que hoje vou ter que adiantar. Porque a garota com quem eu gostaria de dançar tem uma estranha tendência a desaparecer de repente...Então prefiro chamá-la agora, enquanto ela está bem na minha frente.
Congelei no lugar que estava, sem ter coragem de me virar. Será que ele estava falando de...
- Até hoje eu não sabia o nome dela. Por isso a chamava por vários apelidos... DJ Cinderela. Rainha de Copas. E o meu preferido, que acho que não conseguirei me desacostumar, pois é exatamente isso que ela é: uma princesa. Uma princesa que adora música pop. E eu também não conhecia o rosto dela. Pelo menos achei que não... Mas há poucos minutos constatei que era exatamente como eu a via nos meus sonhos. Então eu gostaria, Cintia, minha princesa pop, que você subisse ao palco, e me desse a honra desta dança.
Continuei parada, mas a Lara começou a me empurrar para que eu subisse logo. Quando as minhas colegas perceberam que era de mim que ele estava falando, começaram a dar gritinhos e a me empurrar também. Embora eu estivesse roxa de vergonha, sabia que não ia haver uma terceira chance. Então subi. Ele abriu o maior sorriso, colocou as mãos na minha cintura, mas, antes que a banda começasse a tocar, ouvi uma voz na multidão. Aquela mesma voz de bruxa, que parecia ter sido inventada para estragar os meus melhores sonhos.
- Parem! Ela não vai dançar!
Eu me afastei para olhar, mas o Fredy continuou me segurando.
- A Cintia está de castigo - ela gritou ainda mais alto. - Foi proibida pelo pai de sair de casa e desobedeceu!
Ninguém se mexeu, e ela então foi andando em direção ao palco. Quando começou a subir as escadas, dois seguranças a impediram.
- Saiam da frente, seus inúteis! Ela é minha filha e tem que fazer o que eu mandar!
Eles pareceram meio em dúvida e começaram a se afastar, mas no segundo seguinte ouvi outra pessoa, chegando cada vez mais perto, mas dessa vez era alguém cuja voz tinha o poder de me tranquilizar mesmo nos piores pesadelos.
- Sua filha? Ou a sua enteada, que você devia tratar muito bem, mas que, pelo contrário, prendeu em um quarto mofado e imundo? Já não bastava roubar meu marido, agora está querendo a minha filha também? Mas saiba que a Cintia é muito mais esperta que o meu ex. Ela não se deixa enganar assim tão fácil.
Parecia que a minha madrasta tinha visto um fantasma. Primeiro ficou branca, depois vermelha, depois verde... A impressão é que ela estava querendo cavar um buraco no chão para fugir dali. As pessoas estavam extasiadas, como se estivessem assistindo uma peça teatral. Porém, de repente, ela recuperou o rebolado, empinou o nariz e falou:
- Então você a considera esperta, né? Pois saiba que o pai dela só a colocou em castigo porque ela ficou em recuperação em duas matérias!
Novo burburinho de vozes foi ouvido, mas um se destacou da multidão.
- A Cintia é uma das melhores alunas do terceiro ano. Ela estuda na nossa escola desde pequena. Confesso que fiquei meio preocupada, após a separação dos pais, por ela ter entrado em uma fase meio introspectiva, usando roupas escuras e se isolando... Mas em nenhum momento isso afetou os estudos Posso confirmar que a Cintia passou com notas bem acima da média e que certamente se dará bem no vestibular!
Olhei para a minha diretora, com vontade de abraçá-la. E pensar que eu sempre havia achado que ela não gostava de mim. No entanto, ela estava apenas preocupada.
Depois disso, a minha madrasta foi saindo de fininho, mas ainda consegui ver o meu pai tendo a maior discussão com ela, provavelmente querendo que ela se explicasse sobre tudo o que tinha ramado para cima de mim.
- Alguém quer dizer mais alguma coisa? - o Frederico perguntou para a plateia, com um ar divertido, e a atenção de todos se voltou para o palco. - Porque por mim, tudo bem, posso esperar a noite inteira. Mas acho que a Cintia deve estar meio desconfortável aqui de pé, usando salto. Pelo que entendi na historinha que passaram, ela não gosta muito de sapato alto. E eu realmente gostaria de dançar enquanto ela ainda consegue se locomover!
As pessoas riram, e então levantei um pouquinho a barra do vestido e falei só para ele:
- Na verdade, eu dei um jeitinho... Pena que estou sem o outro pé do sapato. Eu o perdi em um baile, e o príncipe que o encontrou nunca mais o devolveu para mim.
Ele então deu um sorriso ainda mais lindo, pediu licença, foi atrás do palco e em poucos segundos voltou com o meu outro All Star.
- Mas você sabia que eu ia estar aqui na festa? -perguntei, meio confusa. - Até duas horas atrás, nem eu mesma sabia que viria!
- A minha produção recebeu um telefonema anônimo, falando que a garota que eu procurava estaria aqui...
Passei os olhos pela multidão e vi que a minha tia fez um sinal de positivo para mim. Sorri para ela, sem parar de prestar atenção no que o Fredy estava dizendo.
- A princípio achei que fosse um trote... mas, como eu ainda estava com o sapato, pensei que não faria mal trazê-lo... Posso ajudar a calçá-lo?
Ele se ajoelhou e colocou o tênis no meu pé esquerdo, subi um pouco mais a barra do vestido para ver o par reunido. O Fredy então se levantou e perguntou:
- Dança comigo?
A plateia veio abaixo. Eu apenas sorri e passei os meus braços pelo ombro dele, que então olhou para a banda e sussurrou:
- Aquela.
Em seguida ele me puxou para mais perto, nós começamos a dançar a "nossa" música, a que eu havia colocado poucos minutos antes e que o havia atraído para a cabine de som, aquela que, independentemente do que acontecesse, sempre iria fazer com que nos lembrássemos um do outro.
- Você sabe que eu não vou deixar você fugir nunca mais... - ele falou no meu ouvido, enquanto dançávamos.
- É bom mesmo... - respondi. - Porque parece que finalmente o meu coração está batendo no ritmo certo.
- Pop? - perguntou, rindo. Confirmei, e ele me abraçou mais forte. Depois de um tempo ele me olhou, passou a mão pelo meu cabelo e falou: - Será que a pessoa que desenhou aquela historinha triste que passaram no telão podia reescrever o final?
- E como seria um final melhor? - perguntei.
Ele então sorriu, se aproximou bem devagar e me deu um longo beijo.
Tive que concordar com ele. Aquele final era muito melhor...
E viveram felizes para sempre...
Hoje de manhã Fredy Prince anunciou que não vai mais fazer a turnê internacional que vinha planejando. Por coincidência, na última sexta-feira ele finalmente encontrou, em um festa, a sua princesa misteriosa. A garota, que se chama Cintia Dorella, se revelou ser uma DJ, e agora todas as celebridades querem contratá-la para os seus eventos. Ela, porém, fechou um contrato exclusivo, por tempo indeterminado, para abrir todos os shows do Fredy Prince em sua nova turnê pelo país. Segundo cantor, essa foi a forma que ele conseguiu para que ela não desaparecesse mais. Cintia, por sua vez, disse que não tinha intenção nenhuma de fugir de novo e que estava muito feliz por poder trabalhar ao lado dele. Os dois continuam insistindo que são apenas bons amigos, mas a nova música de Fredy Prince diz o contrário: "Princesa Pop" fala sobre uma menina cheia de ritmo que balançou o coração de um príncipe. Já ouviu isso em algum lugar? Nós também. Só torcemos para que essa história tenha um final feliz. Alguém duvida?
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