quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Princesa Pop: capítulo 6

   - Cintia, Estou com vontade de pegar o primeiro avião pra puxar a sua orelha! Vou ter uma conversa séria com a sua tia, ela não devia ter ido de buscar!
   Era sábado de manhã e eu estava finalmente falando com a minha mãe pela internet. Eu já tinha acabado de contar sobre os acontecimentos da semana e da noite anterior, o que fez com que ela começasse a gritar. Sério, eu estava vendo a hora em que os japoneses (que, pelo que sei, são sempre discretos e falam baixinho) iam expulsá-la do país por violar alguma lei contra poluição sonora ou algo assim. Não que eu fosse reclamar disso...
   Fechei os olhos para tentar me distrair da bronca, e mais uma vez me lembrei de tudo.
   A banda tinha acabado de tocar a primeira música e eu estava embasbacada olhando para o palco - completamente pasma ao constatar que o menino simples e interessante que tinha conversado comigo antes do show e o megaultrafamoso Fredy Prince eram a mesma pessoa -, quando de repente senti alguém colocar a mão no meu ombro. Virei para trás e dei de cara com a bruxa. Quero dizer, com a mulher do meu pai, a minha madrasta.
   - Então você veio mesmo... Sabia que eu cheguei a apostar com seu pai que não viria? mas, pelo visto, ele realmente te conhece bem.
   Pensei em ignorar e sair andando, mas a raiva que eu tinha daquela mulher me fez falar:
   - É claro que me conhece! Afinal, ele viveu comigo por 16 anos, até você chegar e atrapalhar tudo!
   Ela me lançou um olhar de desdém e replicou:
   - É uma pena que você pense assim, porque todo mundo concorda que ele está bem melhor comigo. Sua mãe era uma esposa muito ausente, você tem que concordar! E agora o seu pai tem uma nova família. Uma mulher dedicada, que cuida dele e da casa, filhas adotivas amorosas, que não viram as costas para ele...
   - Desde que ele continue financiando festas caras para elas, não é?
   - O que quer dizer com isso? Está chamando as minhas filhas de interesseiras?! - Ela pegou o meu braço e apertou. Aquelas unhas vermelhas pontudas chegaram até a machucar o meu pulso, e por isso eu fiz força para me soltar. Bem naquele momento, o meu pai apareceu.
   - O que está acontecendo aqui? - ele perguntou. Vi um ar de surpresa passar pelo seu olhar e percebi que apenas então ele havia me reconhecido. - Cintia! Você veio! E está linda, uma verdadeira princesa!
   A mulher dele fez a maior cara ódio que eu já vi na vida, mas, no segundo seguinte, passou a mão pelo meu cabelo, dizendo:
   - Sim, ela veio! Não é maravilhoso? Eu estava aqui exatamente dizendo para ela como fiquei feliz por isso!
   Tive vontade de voar no pescoço dela, mas como eu já tinha conseguido o que queria, que era simplesmente encontrar o meu pai, apenas olhei para ele e respondi:
   - Vim! E obrigada pelo elogio... Só que eu não vou poder demorar muito, pois tenho que acordar cedo amanhã.
   - Ah, mas antes você vai querer ver um pouquinho do show! - Ele segurou o meu braço e me levou mais para perto do palco. - Aposto que você também é apaixonada por esse cantor! No quarto das suas irmãs tem vários pôsteres dele, e eu fiquei sabendo que ele é o queridinho de 99,9% das jovens brasileiras!
   Se aquilo tivesse acontecido uma hora antes, eu diria que fazia parte do 0,1% que não estavam nem aí para aquele garoto. Mas agora eu não tinha tanta certeza...
   Assim que chegamos na frente do palco, pude olhar para ele de perto novamente e vi aqueles mesmos olhos penetrantes que me desorientaram por completo quando eu estava na cabine de som. Mas agora - sem uma máscara para esconder o seu rosto -, percebi que os olhos vinham acompanhados de um sorriso perfeito, de um cabelo que tinha um corte lindo, de um nariz e de um queixo muito bem-formados... e que aquele conjunto simplesmente fazia com que fosse difícil, muito difícil, parar de olhar para ele.
   A minha madrasta, que viera atrás da gente e eu nem havia percebido, deu um jeito de tirar o meu pai de perto de mim, dizendo que alguns convidados queriam falar com ele. Achei que aquele seria o momento ideal para fugir. No dia seguinte eu telefonaria para o meu pai, explicando que eu tinha comido algo que não caíra bem, ou que havia torcido o pé... Qualquer desculpa que o fizesse acreditar que precisara ir embora depressa, sem nem mesmo me despedir.
   Porém, no momento em que me virei na direção da saída, ouvi uma melodia conhecida. Era a música que o Frederico, ou melhor, o Fredy Prince tinha pedido para mim! Olhei de novo para o palco, e fiquei surpresa ao notar que ele estava olhando para a cabine de som. Será que ele estava... Não, ele não podia estar querendo ver se eu estava prestando atenção.
   Ele começou a cantar, e não consegui mais sair do lugar. Na voz dele, aquela música era ainda mais bonita. Fiquei lá, parada, observando, até que ao fim da canção, ele falou:
   - Em todo o show, eu escolho uma garota da plateia para dançar comigo. Mas hoje, nessa festa cheia de nobres princesas, eu queria pedir permissão para trazer ao palco uma menina diferente. Ela não veio de um palácio de cristal... Talvez de um castelo de cartas de baralho, desses que a gente vai montando e pode cair com um simples sopro. Não conheço seu rosto, mas percebi que ela tem atitude, muita opinião e, certamente... ritmo. Tenho certeza de que ela sabe dançar em qualquer compasso. Por isso vai se dar muito bem aqui em cima.
   O quê?! Era de mim que ele estava falando?
   - Por favor, suba ao palco, Rainha de Copas! Ou melhor, DJ Cinderela!
   Fiquei parada, sem saber o que fazer. Obviamente ele estava me dando o troco por ter falado mal dele, e agora eu ia me fazer passar vergonha em público. Mas, poxa, ele tinha que entender que eu ainda não sabia que era ele!
   Por menos que eu quisesse admitir, minha vontade era dançar com o "garoto da máscara" até aquela festa chata acabar, mas agora eu tinha descoberto sua identidade secreta, não sabia mais o que pensar. Além disso, se eu simplesmente desse um passo para a frente e assumisse quer era a pessoa de quem ele estava falando, duas coisas iriam acontecer: primeiro, o meu pai iria surtar. Ele nunca permitiria que a filha dele trabalhasse como DJ, à noite! E segundo, o Frederico rira se decepcionar, porque naquele momento eu não era mais nenhuma "rainha diferente". Era uma princesa comum, igual a todas as outras. E eu não queria que isso acontecesse. Será que era isso que eu estava sentindo? Decepção por ele não ser quem eu pensava? Ou será que eu estava arrependida ao constatar o meu engano, por ter julgado uma pessoa sem conhecer e de repente ter que admitir que estava errada?
   Completamente confusa, tudo que pude fazer foi sair correndo. Mal me lembrei de pegar a mochila a tempo, e foi só quando eu cheguei à esquina que liguei para a minha tia, que foi depressa me buscar e alugou o meu ouvido por meia hora quando contei o que havia acontecido. Mas pelo visto eu ainda ia ter que escutar muito mais... e da minha mãe, dessa vez.
   - Não acredito! - ela continuou a falar no Skype. - Você ficou mais de um ano sem se interessar por ninguém e, quando se interessa, pões tudo a perder? Minha filha, será que você não entendeu que o garoto também gostou de você?
   Com essa tive que começar a rir. Ele não tinha gostado de mim coisa nenhuma! Nem tinha visto o meu rosto! Apenas tivemos uma afinidade profissional, por trabalharmos os dois com música, ainda de um jeito bem diferente...
   Quando expliquei isso, a minha mãe apenas disse:
   - Não ter visto o rosto é o de menos! Vai dizer que você não ficou louca com ele muito antes de saber quem realmente era? Pelo que me contou, o que chamou a sua atenção para ele não teve nada a ver com a aparência e sim com a similaridade de gostos e ideias...
   Não respondi, porque sobre essa parte ele não podia estar mais certa. Na verdade, acho que tinha gostado mais dele antes de saber quem realmente era, quando ainda achava que era um garoto normal e não alguém que saía na capa das revistas toda a semana... Mas que diferença aquilo fazia?
   - Mãe - consegui falar depois de um tempo. - Na verdade, isso não importa! Não vou vê-lo mais. Não quero vê-lo mais. Você sabe o que penso sobre o amor. Simplesmente não existe, é uma coisa que os filmes e livros colocam na cabeça das pessoas e todo mundo sai acreditando, desejando tanto que aconteça, que acaba se apaixonando pelo primeiro ser humano que passa pela frente, simplesmente porque a pessoa sorri, ou é educada, ou...
   - Chama a gente para cantar uma música... - a minha mãe me interrompeu. - Cintia, todos os dias sofro por perceber que a minha separação com o seu pai tornou você uma pessoa amarga, fria, e até triste...  E eu faria qualquer coisa pra mudar isso. Filha, já expliquei. O fato de o meu casamento não ter dado certo não significa que o amor não exista, que as pessoas não possam ser felizes juntas. Você tem que viver sua própria história! Claro que é bom aprender com as experiências das outras pessoas, especialmente com a dos pais, mas você não pode acreditar que o que aconteceu na minha vida vai acontecer na sua também! E o seu pai... - Ela fez uma pausa antes de continuar. - O que ele fez comigo foi, sim, muito ruim. Mas o fato de ter sido um marido sem caráter não quer dizer que ele seja assim em todas as áreas da vida. Você sabe que ele sempre foi um bom pai pra você. Não precisa ficar sofrendo por mim pelo resto da vida! Eu estou bem, estou feliz! E quer saber? Ando até querendo me apaixonar de novo...
   Aquela última frase me deixou totalmente sem palavras. O quê?! Ela queria passar por aquilo outra vez?
   - Você costumava ser tão romântica e sonhadora... e de repente virou uma pedra de gelo! Torço muito pra que apareça alguém que derreta seu coração. Quem sabe não vai ser esse príncipe aí que vai salvar você de si mesma?
   - Mãe, é Prince, e não príncipe! E isso não é um conto de fadas, tá? É vida real! E quer saber do que mais? Por que estamos tendo essa conversa? Nada disso importa, ele não deve nem se lembrar de mim!
   A minha mãe só deu um risinho e falou que achava que ele lembrava, sim, pois não devia ser todo dia que encontrava uma garota que não babasse totalmente por ele... E isso me fez lembrar mais uma vez das coisas que eu tinha dito quando eu ainda não sabia com quem eu estava falando.
   - Mas também por que esse cara tinha que estar de máscara? - perguntei. - Eu o reconheceria se estivesse com o rosto descoberto e certamente não teria falado mal dele!
   - Talvez seja por isso mesmo, né? Ele deve ter tido vontade de andar anônimo em uma festa, pra variar... Assim as pessoas não o tratariam de forma especial apenas por ele ser uma celebridade. Inclusive, quem sabe ele não foi dar uma volta disfarçado pra ver se conhecia alguma garota que gostasse de quem ele é de verdade, e não da imagem que a imprensa criou? Uma garota que se interesse pelo jeito dele, pelo gosto musical, pelo sapato que ele usa...
   Depois daquilo falei que tinha que estudar e me despedi da minha mãe. Eu tinha coisas mais importantes para fazer com o meu sábado, como estudar, arrumar o meu armário, montar a set list da festa que ia tocar naquela noite...
   E realmente fiz tudo aquilo. O único problema é que, enquanto eu estudava, a lembrança de um certo par de olhos azuis ficava tirando a minha concentração. Enquanto eu fazia a lista das músicas, a primeira que anotei foi aquela que alguém tinha me pedido no dia anterior. Enquanto arrumava o meu armário, não tive como não ver a minha coleção de All Star de todas as cores e lembrar do elogio que o meu preto, com naipes de baralho e notas musicais, tinha recebido...
   Para piorar ainda mais, quando a Lara me ligou para saber como tinha sido a festa, e eu contei a história tintim por tintim, ela arregalou os olhos e falou:
   - Ai, meu Deus! Então é de você que ele estava falando? - Fiquei meio sem entender, mas ela no segundo seguinte completou: - Cintia, liga o computador e entra no Twitter do Fredy Prince! Você precisa ler o que ele escreveu!
   O meu notebook já estava ligado, afinal eu tinha acabado de falar com a minha mãe, então foi só digitar o endereço. Meu coração deu um pequeno salto ao ver a foto dele, o que me deixou meio assustada e aborrecida. O que estava acontecendo comigo? Comecei a ler tudo o que ele tinha escrito, em sua maioria respostas aos elogios das fãs, até que cheguei a uma mensagem que pelo visto tinha sido postada às 4h da manhã.

   Acabei de chegar de um "baile na corte'! Obrigado a todos os príncipes e princesas que vibraram com o nosso som, especialmente as aniversariantes!


   Ah, era só isso? A Lara era tão dramática... Sim, ele devia estar falando de mim e das outras 3.948.208 garotas que ficaram praticamente babando na frente do palco. Falei isso para ela, que praticamente gritou que eu continuasse a ler.
   Fiz o que ela mandou e de repente perdi o ar.

   Cinderela Pop... Nem tive a chance de me despedir... Você realmente desapareceu às doze badaladas!

   Tive que colocar o telefone na mesa, pois minhas mãos de repente começaram a suar. Li o próximo tweet.

   Espero que tenha escutado um pouco do meu som e curtido, assim como eu curti o seu... Notou a ausência de auto-tune? :)

   Ao ver o sorrisinho que ele tinha colocado ao final da mensagem, um sorriso se formou também nos meus lábios, sem a minha permissão. Aquilo significava que ele não só se lembrava da nossa conversa, como pelo visto não tinha se importado com a minha crítica. Mas por que ele se importaria? Pelo pouco que vi do show, ele realmente não precisava de nenhuma ferramenta artificial. Era mesmo tudo aquilo que diziam. Talentoso. Lindo. Charmoso. Mas, além disso, agora eu sabia que também era humilde, inteligente e espirituoso! E foi isso que fez com que o certo arrependimento começasse a surgir dentro de mim. Será que eu devia ter dançado com ele? No mínimo, agora ele achava que eu tinha fugido de vergonha por tê-lo criticado! Não que essa suposição estivesse errada.
   Ouvi uns gritos vindos do meu celular e só então me lembrei que a Lara ainda estava na linha.
   - Tudo bem, li tudo - eu disse, colocando novamente o telefone no ouvido. - Eu mereço mesmo essa esnobada que ele me deu. É bom para eu aprender a não falar mal das pessoas sem conhecê-las antes. Vou ter que pedir desculpas caso algum dia tenha a chance de falar com ele de novo. Mas claro que isso não vai acontecer nunca...
   Respirei fundo. Então a Lara disse:
   - Como assim não vai acontecer nunca? Você leu tudo mesmo? Não viu a última coisa que ele escreveu?
   Ainda tinha mais? A minha visão até embaralhou enquanto tentava achar a mensagem de que ela estava falava. Ao encontrar, o meu coração deu uma cambalhota tripla. Definitivamente algo de muito errado estava acontecendo comigo. Aquele garoto não tinha nada de "príncipe"! No mínimo devia ser um bruxo disfarçado, porque só um feitiço explicaria tudo que eu estava sentindo. Ele havia me deixado completamente... encantada.

   Estou com um dos seus sapatinhos de cristal. E só entrego pessoalmente. Traga o outro pra completar o par. Dia 7 às 21h. Castelo do Rock.

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