Quando eu ainda morava naquele prédio, um pensamento sempre me passava pela cabeça: e se algum dia eu saísse distraída do elevador sem perceber que estava no andar errado e abrisse a porta de um vizinho? Foi exatamente assim que me senti ao entrar ali de novo. Tudo estava igual. E ao mesmo tempo tão diferente... Nada lembrava os anos que eu tinha vivido com os meus pais. A decoração, a atmosfera... e até as paredes estavam de outra cor. Fui direto para o meu antigo quarto, mas levei um susto ao ver que meu era o que ele menos era agora. O chão estava coberto de roupas espalhadas, revistas por todos os cantos, a cama desarrumada... E, no meio dela, uma das gêmeas lia uma revista com fones de ouvido e mascava chiclete. Ao me ver, ela levantou, colocou a mãos na cintura e falou:
- Quem foi ao ar, perdeu o lugar! Esse era o melhor quarto da casa, o único TV e varanda. E a minha irmã tiramos no par ou ímpar para ver quem ficaria com ele. Como vê, agora ele é meu!
Não falei nada; Apenas me virei e fui em direção ao antigo quarto de hóspedes. Eu não me importava, pois não tinha a intenção de ficar ali mais do que alguns dias. Porém, ao entrar no outro quarto, vi que ele também já estava ocupado. A outra gêmea estava passando esmalte nos dedos do pé e, quando me viu, apenas mandou que eu pegasse a acetona que tinha deixado no banheiro. A mesma bagunça se via, e talvez um pouco pior, porque as paredes estavam lotadas de vários ídolos adolescentes. Inclusive do... Fredy Prince. Senti um aperto no coração ao ver aquilo. Dei meia-volta, sem ligar a mínima para a "ordem" dela, e fui para a sala. Eu nunca havia me sentido tão deslocada na vida.
- Ora, ora. A que devo a honra da sua visita, alteza?
Aquela voz. Só de escutá-la eu já sentia arrepios. Ver aquela mulher na minha frente me fazia ter vontade de pular pela janela.
- Sua falsa! - falei, tentando não gritar. - Eu fiz exatamente o que você mandou! Fui embora depois do seu telefonema! Você não viu na internet? O Fredy Prince continua sem saber quem é a dona do sapato!
- Estamos quites, Cintia - ela disse, se aproximando. - Você também se garantiu que o sapato era aquele. E não era. Quem é a falsa aqui, hein? - Como não respondi, ela continuou: - Não é incrível como o mundo dá voltas? Da última vez que nos encontramos neste apartamento, eu era a única peça que não se encaixava no seu mundo perfeito. - Ela parou na minha frente e começou a passar a mão pelo meu cabelo. - Agora, este mundo é meu. E, se tem alguma coisa fora do lugar, é você. - Ela colocou as unhas pontudas na minha nuca e começou a apertar. - Saiba que aqui sou eu que faço as regras. E você vai ter que acatar todas elas!
- Eu não vou acatar porcaria nenhuma. - Eu afastei a mão dela com tanta força que o anel que estava usando até caiu. - Quem você pensa que é? Você não manda em mim! Você não é nada minha! E eu desprezo você tanto quanto desprezava naquele primeiro dia!
Ela apenas levantou uma sobrancelha, deu um sorrisinho, se sentou no sofá e começou a chorar! A chorar muito. E bem alto.
Aquilo atraiu a atenção da casa inteira. As duas filhas, o meu pai e até mesmo a empregada vieram correndo para ver o que tinha acontecido. Antes que que eu dissesse que ela havia apenas enlouquecido, a minha madrasta já estava explicando entre soluços que eu era muito mal-agradecida, pois só tinha perguntado se poderia me chamar de "filha", já que tinha a intenção de ser uma verdadeira mãe para mim, mas, em vez de responder, eu havia batido nela e a empurrado no sofá.
- O quê? - Eu não podia acreditar naquilo. - Isso é mentira! Não fiz nada disso!
- E ainda jogou o meu anel de noivado no chão - ela continuou como se eu não tivesse interrompido, apontando para o anel que tinha parado em um canto da sala. - Eu só queria que ela me aceitasse como parte da família...
As meninas foram correndo para a mãe, dizendo que a amavam e que não precisava de mim. A empregada ficou me olhando como se eu fosse um monstro, e o meu pai simplesmente se virava de uma para a outra, até que falou:
- Cintia, eu realmente não estou te reconhecendo. Você mudou muito. Onde está a menina meiga e doce que você costumava ser? Está se portando como uma rebelde! A sua madrasta ficou a manhã inteira fazendo arranjos para acomodar você aqui. Não achei justo desabrigar as suas irmãs dos quartos aos quais já estão acostumadas, e ela gentilmente disse que faria do escritório o melhor quarto da casa, especialmente pra você! E, quando fui buscá-la, ela ainda me disse que estava muito empolgada por finalmente poderem ficar mais próximas! E é assim que você retribui?
Então a bruxa tinha reformado o escritório para mim. Quanta generosidade... No escritório mal cabia uma pessoa em pé! Bem pelo menos eu teria um lugar para ficar sozinha. Lá pelo menos poderia ficar no meu computador e esquecer onde estava.
- Eu pensei que nunca precisaria castigar você, mas isso passou dos limites - meu pai continuou. - Só lamento ter esperado tanto tempo para intervir! Eu devia ter obrigado você a vir pra cá antes. Certamente são as companhias que você arrumou nesse período que foram uma influência negativa. E, pra cortar o mal pela raiz, vou agora mesmo cancelar a sua linha de celular. Nada de internet para você também. E, até acabarem as aulas e você passar no vestibular, está proibida de sair de casa. Quero que você venha do colégio para cá e se dedique totalmente aos seus estudos!
- Você não pode me tratar assim, como se eu fosse uma criança! - gritei. Que história era aquela de vestibular? Eu não ia fazer vestibular no Brasil. Minha intenção era terminar o colégio e ir morar com a mina mãe no Japão! - Eu vou ligar para a minha tia, e ela não vai permitir que você faça isso comigo!
As gêmeas começaram a rir, dizendo que eu não ia poder telefonar sem celular. Tive vontade de bater nas duas, mas me contive, imaginando quantos outros castigos aquilo poderia me render.
Subi depressa as escadas para o escritório, pois estava a ponto de chorar, e ao abrir a porta vi que o cômodo realmente havia sido "preparado". Estava cheio de vassouras, baldes e vários utensílios de limpeza. Notei um sofá rasgado encostado na parede, com a roupa de cama mais velha que já havia visto. E, em um canto, um baú antigo, que tive até medo de abrir, com receio do que poderia encontrar dentro dele.
Entrei em um pequeno banheiro anexo, abri o chuveiro e vi que a água que saía era gelada. Na parede descascada havia um espelho quebrado. E o vaso sanitário, pude constatar, estava entupido. Ótimo. Sem internet. Sem telefone. Sem janelas. sem água quente. Sem vida.
Passei o fim de semana praticamente sem sair daquele cubículo. Não estava com fome nem com sede. Fiquei ouvindo músicas e mais músicas que me deixavam mais triste, lembrando que poderia estar trabalhando em alguma festa naquele momento, mas em vez disso estava enclausurada, sem poder fazer nada. Pensei que a minha tia me ligaria ou daria um jeito de me resgatar, mas ela não apareceu. Então resolvi dormir o máximo possível, para a segunda-feira chegar logo e eu pelo menos poder ir para a escola e sair um pouco daquele confinamento, mas em cada um dos meus sonhos via o Frederico. E aquilo só fazia com que eu acordasse ainda mais deprimida, por ter perdido a minha chance. E por ter feito com que ele ficasse triste também...
Na hora de ir para a escola na segunda-feira, tentei ir de ônibus, como sempre, mas o meu pai fez questão de me levar. Ele queria se certificar de que eu realmente iria para a escola, e me avisou que também estria ali para me buscar ao final das aulas.
Desci do carro muito contrariada, mas, ao encontrar a Lara, minha angústia diminuiu.
- Cintia! A sua t ele começa a turnê internciia me contou o que aconteceu! O que houve com o seu celular? Liguei o fgimde semana inteiro e só caiu em uma gravação que diz que o número não existe! E também tentei telefonar várias vezes para a casa do seu pai, mas me informaram que não tinha ninguém com o seu nome lá! A sua tia me explicou que também estava na mesma situação e que inclusive tinha tentado ir ao prédio do seu pai com a polícia, mas parece que ele tem um documento dizendo que está com a sua guarda provisória, uma vez que a sua mãe está viajando...
Então era por isso que ninguém tinha me procurado... E eu pensando que as duas tinham de abandonado...
- A sua tia mandou vários e-mails explicando, você não recebeu?
Suspirei e contei sobre a proibição da internet, e ela então arregalou os olhos e falou:
- Então você não está sabendo sobre o Fredy Prince?
Só a menção daquele nome me fez derreter.
- O que tem ele? - perguntei, mais ansiosa do que nunca.
Porém, naquele momento a professora entrou na sala. Pensei que ia morrer de curiosidade, mas, assim que a aula começou, a Lara deu um jeito de passar uma revista aberta para mim por debaixo da carteira.
Turnê internacional
Fredy Prince, anunciou que ficará um tempo fora do país. Ele e sua banda viajarão para fazer shws no exterior. Segundo o cantor, as viagens já faziam parte do plano de divulgação de seu novo CD, mas há quem diga que o real motivo é a desilusão recente que ele sofreu. Seja qual for a razão, as adolescentes brasileiras terão que ficar sem seu príncipe por um tempo, pois a última apresentação por aqui será uma festa fechada na próxima sexta-feira. Na semana seguinte, ele começa a turnê internacional que com certeza lhe trará ainda mais fãs. Só esperamos que ele não se esqueça das brasileiras. A maioria delas com certeza vai sentir saudade!
Li com o coração acelerado e ao final percebi que estava ainda mais triste. Eu não tinha esperança de encontrá-lo novamente, mas pelo menos sabia que ele estava por perto... Agora ele iria embora e, quando voltasse, provavelmente nem se lembraria mais de que um dia havia conhecido uma DJ mascarada...
Fui a um telefone público na hora do intervalo e pude explicar para a tia Helena o que estava acontecendo, sobre o castigo que o meu pai havia me imposto, me impedindo de usar o celular e a internet, e também sobre o quarto em que a minha madrasta havia me colocado, que eu tinha a impressão de que o meu pai nem sabia que estava em condições tão ruins. Mas, como eu não queria que ele pensasse que a reinvindicação por um quarto melhor era sinal de que eu queria me sentir confortável na casa dele, preferi me manter no cubículo. A minha tia me garantiu que já estava tomando providências com um advogado e que tinha certeza de que até o final da semana eu já estaria "livre". Pedi também para que ela escrevesse para a minha mãe explicando o motivo de eu não ter ligado desde sexta-feira, mas ela me tranquilizou dizendo que já tinha cuidado dessa parte.
Pensei que nunca diria isso, mas a aula passou mais rápido do que eu gostaria. Retornar para aquele "cativeiro" foi um suplício, mas, ainda no carro do pai, na volta, algo que as gêmeas disseram me animou um pouco.
- Precisamos de roupas novas! - uma delas falou para o meu pai. - Temos um baile na sexta-feira!
- Um baile? - meu pai perguntou. - Uma festa, você quer dizer? Mais uma colega fazendo 15 anos? Será que essas festas não vão acabar nunca?
- Não, pai! - a outra respondeu. Pai!? Então agora elas o chamavam assim? - É um baile mesmo. Um baile de formatura. O tradicional baile de máscaras do terceiro ano.
O quê? Elas estavam falando do baile da minha turma? Mas elas ainda estavam no primeiro ano!
- Mas esse baile não é só para os alunos do terceiro ano? - meu pai perguntou, tirando as palavras da minha boca.
- Para os alunos e familiares! - elas responderam, bem satisfeitas. - A Cintia pode convidar a gente!
- Ah, eu posso? - falei, no tom mais irônico que consegui. - Que pena que eu não vou fazer isso, né?
As duas começaram a reclamar, e o meu pai então perguntou por que eu não ia levá-las.
- Ora... - falei com a voz e a expressão mais inocentes do mundo. - Eu estou de castigo, lembra? Só posso sair depois do vestibular...
Tive que engolir uma risada ao ver a cara do meu pai. Uns segundos se passaram antes que ele limpasse a garganta e dissesse:
- Bem, não vejo problema em você ir à festa de formatura da escola. Afinal, vai ser a última do ano. Nos outros dias você compensa e estuda mais...
As gêmeas começaram a bater palmas, mas permaneci séria. Ao perceber que eu não tinha vibrado com a permissão dele, meu pai completou:
- E não vejo mal algum em você levar a Gisele e a Graziele... Você deve ter alguns convites, não é?
Eu tinha vários, considerando que só tinha convidado a tia Helena e o Rafa. Mas claro que eu não ia dar aquilo para elas de badeja...
- Na verdade, já entreguei todos os meus convites. Eu até poderia ligar para o pessoal da comissão organizadora e pedir mais, mas, como vocês sabem, o meu pai cortou o meu telefone...
- Você pode usar o meu, Cintia! - a Graziele falou.
- Não, use o meu, ele tem até internet - a Gisele completou.
Eu apenas dei de ombros e expliquei que eu não sabia de cor os telefones dos meus colegas, pois ficavam na agenda do meu celular. O meu pai, meio que percebendo o que eu pretendia, disse bem sério:
- Eu vou pedir que religuem a linha. Mas o castigo continua. Além da escola, você vai sair apenas na sexta-feira, para ir com as suas irmãs a esse baile. Mas, se tirar nota baixa, elas vão e você fica em casa. Entendido?
As gêmeas começaram a dar gritinhos, o meu pai concordou em comprar um vestido para cada uma delas e perguntou se eu também queria um. Comecei a dizer que não precisava, pois, além de não querer nada dele, eu não tinha a menor intenção de usar vestido, e sim calça jeans. Foi aí que a Gisele disse:
- Tenho certeza de que o Fredy Prince vai se lembrar da gente! E agora, com aquela menina do sato fora do caminho, aposto que ele vai nos dar uma chance!
- Fredy Prince? - perguntei sem fôlego.
As duas me olharam como se eu fosse tapada.
- Dã! - a Graziele falou. - Vai dizer que você não sabe que ele vai tocar na festa da sua turma? Todo mundo só fala disso desde a sexta-feira...
Eu havia faltado na sexta-feira. E a Lara provavelmente não tinha me contado por causo do castigo, porque com certeza não queria que eu sofresse ainda mais. Minha cabeça começou a rodar. Então eu teria a chance de vê-lo novamente... E dessa vez não ia jogá-la fora!
- Eu também vou querer um vestido - falei de repente. As gêmeas pararam de falar e olharam para mim. - A maioria das minhas roupas ficou na casa da minha tia - expliquei. - E o meu pai não quer que eu volte lá.
Mas a verdade é que dessa vez eu realmente precisaria estar bonita.
- Isso mesmo, não quero que você volte àquela espelunca! - meu pai respondeu, meio bravo. - Dou quantos vestidos você precisar. Desde que você não pise mais naquele local.
Eu não queria vários, apenas um.
Mas, se ele pensava que eu não ia mais à casa da minha tia, estava completamente enganado. Eu só esperava que o que ela dissera no telefone mais cedo fosse verdade... Pois tudo que eu mais queria era que ela conseguisse me tirar daquela prisão o mais rápido possível.
Aquilo atraiu a atenção da casa inteira. As duas filhas, o meu pai e até mesmo a empregada vieram correndo para ver o que tinha acontecido. Antes que que eu dissesse que ela havia apenas enlouquecido, a minha madrasta já estava explicando entre soluços que eu era muito mal-agradecida, pois só tinha perguntado se poderia me chamar de "filha", já que tinha a intenção de ser uma verdadeira mãe para mim, mas, em vez de responder, eu havia batido nela e a empurrado no sofá.
- O quê? - Eu não podia acreditar naquilo. - Isso é mentira! Não fiz nada disso!
- E ainda jogou o meu anel de noivado no chão - ela continuou como se eu não tivesse interrompido, apontando para o anel que tinha parado em um canto da sala. - Eu só queria que ela me aceitasse como parte da família...
As meninas foram correndo para a mãe, dizendo que a amavam e que não precisava de mim. A empregada ficou me olhando como se eu fosse um monstro, e o meu pai simplesmente se virava de uma para a outra, até que falou:
- Cintia, eu realmente não estou te reconhecendo. Você mudou muito. Onde está a menina meiga e doce que você costumava ser? Está se portando como uma rebelde! A sua madrasta ficou a manhã inteira fazendo arranjos para acomodar você aqui. Não achei justo desabrigar as suas irmãs dos quartos aos quais já estão acostumadas, e ela gentilmente disse que faria do escritório o melhor quarto da casa, especialmente pra você! E, quando fui buscá-la, ela ainda me disse que estava muito empolgada por finalmente poderem ficar mais próximas! E é assim que você retribui?
Então a bruxa tinha reformado o escritório para mim. Quanta generosidade... No escritório mal cabia uma pessoa em pé! Bem pelo menos eu teria um lugar para ficar sozinha. Lá pelo menos poderia ficar no meu computador e esquecer onde estava.
- Eu pensei que nunca precisaria castigar você, mas isso passou dos limites - meu pai continuou. - Só lamento ter esperado tanto tempo para intervir! Eu devia ter obrigado você a vir pra cá antes. Certamente são as companhias que você arrumou nesse período que foram uma influência negativa. E, pra cortar o mal pela raiz, vou agora mesmo cancelar a sua linha de celular. Nada de internet para você também. E, até acabarem as aulas e você passar no vestibular, está proibida de sair de casa. Quero que você venha do colégio para cá e se dedique totalmente aos seus estudos!
- Você não pode me tratar assim, como se eu fosse uma criança! - gritei. Que história era aquela de vestibular? Eu não ia fazer vestibular no Brasil. Minha intenção era terminar o colégio e ir morar com a mina mãe no Japão! - Eu vou ligar para a minha tia, e ela não vai permitir que você faça isso comigo!
As gêmeas começaram a rir, dizendo que eu não ia poder telefonar sem celular. Tive vontade de bater nas duas, mas me contive, imaginando quantos outros castigos aquilo poderia me render.
Subi depressa as escadas para o escritório, pois estava a ponto de chorar, e ao abrir a porta vi que o cômodo realmente havia sido "preparado". Estava cheio de vassouras, baldes e vários utensílios de limpeza. Notei um sofá rasgado encostado na parede, com a roupa de cama mais velha que já havia visto. E, em um canto, um baú antigo, que tive até medo de abrir, com receio do que poderia encontrar dentro dele.
Entrei em um pequeno banheiro anexo, abri o chuveiro e vi que a água que saía era gelada. Na parede descascada havia um espelho quebrado. E o vaso sanitário, pude constatar, estava entupido. Ótimo. Sem internet. Sem telefone. Sem janelas. sem água quente. Sem vida.
Passei o fim de semana praticamente sem sair daquele cubículo. Não estava com fome nem com sede. Fiquei ouvindo músicas e mais músicas que me deixavam mais triste, lembrando que poderia estar trabalhando em alguma festa naquele momento, mas em vez disso estava enclausurada, sem poder fazer nada. Pensei que a minha tia me ligaria ou daria um jeito de me resgatar, mas ela não apareceu. Então resolvi dormir o máximo possível, para a segunda-feira chegar logo e eu pelo menos poder ir para a escola e sair um pouco daquele confinamento, mas em cada um dos meus sonhos via o Frederico. E aquilo só fazia com que eu acordasse ainda mais deprimida, por ter perdido a minha chance. E por ter feito com que ele ficasse triste também...
Na hora de ir para a escola na segunda-feira, tentei ir de ônibus, como sempre, mas o meu pai fez questão de me levar. Ele queria se certificar de que eu realmente iria para a escola, e me avisou que também estria ali para me buscar ao final das aulas.
Desci do carro muito contrariada, mas, ao encontrar a Lara, minha angústia diminuiu.
- Cintia! A sua t ele começa a turnê internciia me contou o que aconteceu! O que houve com o seu celular? Liguei o fgimde semana inteiro e só caiu em uma gravação que diz que o número não existe! E também tentei telefonar várias vezes para a casa do seu pai, mas me informaram que não tinha ninguém com o seu nome lá! A sua tia me explicou que também estava na mesma situação e que inclusive tinha tentado ir ao prédio do seu pai com a polícia, mas parece que ele tem um documento dizendo que está com a sua guarda provisória, uma vez que a sua mãe está viajando...
Então era por isso que ninguém tinha me procurado... E eu pensando que as duas tinham de abandonado...
- A sua tia mandou vários e-mails explicando, você não recebeu?
Suspirei e contei sobre a proibição da internet, e ela então arregalou os olhos e falou:
- Então você não está sabendo sobre o Fredy Prince?
Só a menção daquele nome me fez derreter.
- O que tem ele? - perguntei, mais ansiosa do que nunca.
Porém, naquele momento a professora entrou na sala. Pensei que ia morrer de curiosidade, mas, assim que a aula começou, a Lara deu um jeito de passar uma revista aberta para mim por debaixo da carteira.
Turnê internacional
Fredy Prince, anunciou que ficará um tempo fora do país. Ele e sua banda viajarão para fazer shws no exterior. Segundo o cantor, as viagens já faziam parte do plano de divulgação de seu novo CD, mas há quem diga que o real motivo é a desilusão recente que ele sofreu. Seja qual for a razão, as adolescentes brasileiras terão que ficar sem seu príncipe por um tempo, pois a última apresentação por aqui será uma festa fechada na próxima sexta-feira. Na semana seguinte, ele começa a turnê internacional que com certeza lhe trará ainda mais fãs. Só esperamos que ele não se esqueça das brasileiras. A maioria delas com certeza vai sentir saudade!
Li com o coração acelerado e ao final percebi que estava ainda mais triste. Eu não tinha esperança de encontrá-lo novamente, mas pelo menos sabia que ele estava por perto... Agora ele iria embora e, quando voltasse, provavelmente nem se lembraria mais de que um dia havia conhecido uma DJ mascarada...
Fui a um telefone público na hora do intervalo e pude explicar para a tia Helena o que estava acontecendo, sobre o castigo que o meu pai havia me imposto, me impedindo de usar o celular e a internet, e também sobre o quarto em que a minha madrasta havia me colocado, que eu tinha a impressão de que o meu pai nem sabia que estava em condições tão ruins. Mas, como eu não queria que ele pensasse que a reinvindicação por um quarto melhor era sinal de que eu queria me sentir confortável na casa dele, preferi me manter no cubículo. A minha tia me garantiu que já estava tomando providências com um advogado e que tinha certeza de que até o final da semana eu já estaria "livre". Pedi também para que ela escrevesse para a minha mãe explicando o motivo de eu não ter ligado desde sexta-feira, mas ela me tranquilizou dizendo que já tinha cuidado dessa parte.
Pensei que nunca diria isso, mas a aula passou mais rápido do que eu gostaria. Retornar para aquele "cativeiro" foi um suplício, mas, ainda no carro do pai, na volta, algo que as gêmeas disseram me animou um pouco.
- Precisamos de roupas novas! - uma delas falou para o meu pai. - Temos um baile na sexta-feira!
- Um baile? - meu pai perguntou. - Uma festa, você quer dizer? Mais uma colega fazendo 15 anos? Será que essas festas não vão acabar nunca?
- Não, pai! - a outra respondeu. Pai!? Então agora elas o chamavam assim? - É um baile mesmo. Um baile de formatura. O tradicional baile de máscaras do terceiro ano.
O quê? Elas estavam falando do baile da minha turma? Mas elas ainda estavam no primeiro ano!
- Mas esse baile não é só para os alunos do terceiro ano? - meu pai perguntou, tirando as palavras da minha boca.
- Para os alunos e familiares! - elas responderam, bem satisfeitas. - A Cintia pode convidar a gente!
- Ah, eu posso? - falei, no tom mais irônico que consegui. - Que pena que eu não vou fazer isso, né?
As duas começaram a reclamar, e o meu pai então perguntou por que eu não ia levá-las.
- Ora... - falei com a voz e a expressão mais inocentes do mundo. - Eu estou de castigo, lembra? Só posso sair depois do vestibular...
Tive que engolir uma risada ao ver a cara do meu pai. Uns segundos se passaram antes que ele limpasse a garganta e dissesse:
- Bem, não vejo problema em você ir à festa de formatura da escola. Afinal, vai ser a última do ano. Nos outros dias você compensa e estuda mais...
As gêmeas começaram a bater palmas, mas permaneci séria. Ao perceber que eu não tinha vibrado com a permissão dele, meu pai completou:
- E não vejo mal algum em você levar a Gisele e a Graziele... Você deve ter alguns convites, não é?
Eu tinha vários, considerando que só tinha convidado a tia Helena e o Rafa. Mas claro que eu não ia dar aquilo para elas de badeja...
- Na verdade, já entreguei todos os meus convites. Eu até poderia ligar para o pessoal da comissão organizadora e pedir mais, mas, como vocês sabem, o meu pai cortou o meu telefone...
- Você pode usar o meu, Cintia! - a Graziele falou.
- Não, use o meu, ele tem até internet - a Gisele completou.
Eu apenas dei de ombros e expliquei que eu não sabia de cor os telefones dos meus colegas, pois ficavam na agenda do meu celular. O meu pai, meio que percebendo o que eu pretendia, disse bem sério:
- Eu vou pedir que religuem a linha. Mas o castigo continua. Além da escola, você vai sair apenas na sexta-feira, para ir com as suas irmãs a esse baile. Mas, se tirar nota baixa, elas vão e você fica em casa. Entendido?
As gêmeas começaram a dar gritinhos, o meu pai concordou em comprar um vestido para cada uma delas e perguntou se eu também queria um. Comecei a dizer que não precisava, pois, além de não querer nada dele, eu não tinha a menor intenção de usar vestido, e sim calça jeans. Foi aí que a Gisele disse:
- Tenho certeza de que o Fredy Prince vai se lembrar da gente! E agora, com aquela menina do sato fora do caminho, aposto que ele vai nos dar uma chance!
- Fredy Prince? - perguntei sem fôlego.
As duas me olharam como se eu fosse tapada.
- Dã! - a Graziele falou. - Vai dizer que você não sabe que ele vai tocar na festa da sua turma? Todo mundo só fala disso desde a sexta-feira...
Eu havia faltado na sexta-feira. E a Lara provavelmente não tinha me contado por causo do castigo, porque com certeza não queria que eu sofresse ainda mais. Minha cabeça começou a rodar. Então eu teria a chance de vê-lo novamente... E dessa vez não ia jogá-la fora!
- Eu também vou querer um vestido - falei de repente. As gêmeas pararam de falar e olharam para mim. - A maioria das minhas roupas ficou na casa da minha tia - expliquei. - E o meu pai não quer que eu volte lá.
Mas a verdade é que dessa vez eu realmente precisaria estar bonita.
- Isso mesmo, não quero que você volte àquela espelunca! - meu pai respondeu, meio bravo. - Dou quantos vestidos você precisar. Desde que você não pise mais naquele local.
Eu não queria vários, apenas um.
Mas, se ele pensava que eu não ia mais à casa da minha tia, estava completamente enganado. Eu só esperava que o que ela dissera no telefone mais cedo fosse verdade... Pois tudo que eu mais queria era que ela conseguisse me tirar daquela prisão o mais rápido possível.
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