- Ci, pelo amor de Deus! Aceite logo a roupa que seu pai quer dar! Não é como se você nunca tivesse se vestido como uma bonequinha... Aliás, pelo que me lembro, você adorava usar vestidinhos, e foi só depois de vir para cá que passou a usar essas calças meio rasgadas e blusas escuras. Espero que ninguém pense que isso foi influência minha! E que mal vai fazer você dar uma passadinha rápida no aniversário? Será que não sente falta disso, de aproveitar uma comemoração pra variar? Atualmente você só vai a festas para trabalhar. E, se o seu pai quer que você dê uma de princesa, que mal tem? É só por uma noite, o seu tênis não vai fugir.
Eu balancei a cabeça e olhei para a minha tia, sem acreditar que ela ainda não tinha percebido o problema.
- Vai ser na sexta-feira! - respondi, apontando para o calendário. Havia um círculo vermelho em volta da data.
- Você pode desmarcar um dia de trabalho. - Ela deu de ombros. - O Rafa arruma alguém para te substituir.
- Tia, você não entende? Ninguém pode me substituir. Essa festa está marcada há dois séculos e meio, e eu já estava montando a set list que pediram. Falaram para eu alternar músicas atuais com canções da Disney! Parece que a aniversariante tem mania de princesa... ou algo assim.
O final da frase saiu com a voz minguada. Corri para pegar a minha agenda e verifiquei o endereço do local. Em seguida, peguei o convite que o meu pai havia enviado e que, por milagre, eu não tinha jogado no lixo imediatamente. Abri-o sob o olhar atento da minha tia.
- Não acredito... - ela falou, meio rindo, ao ver a minha cara de desespero. - É a mesma festa? Você vai tocar na festa de 15 anos das bruxinhas?
Eu e a minha tia nos referíamos à mulher do meu pai como "bruxa" e, consequentemente, às filhas dela como "bruxinhas". Sempre achamos graça nisso, mas dessa vez aquilo não tinha nada de engraçado.
- O que eu vou fazer? Ninguém pode me substituir, tenho certeza! Está muito em cima da hora. Mas, se eu for, vão me reconhecer, e aí o meu pai vai dar um jeito de impedir que eu continue trabalhando. Eu estou perdida de qualquer jeito!
A minha tia só balançou a cabeça e pegou o telefone. Tinha sido o namorado dela, o Rafa, que havia arrumado aquele trabalho para mim. Poucos dias após a viagem da minha mãe (quando eu não tirava os fones de ouvido, para fugir da realidade), ele pediu para ver que tipo de som eu estava escutando. O Rafa foi passando faixa por faixa e, ao final, falou que eu tinha um excelente gosto musical. Ele era DJ e tinha uma empresa de som que trabalhava em festas, e perguntou se eu gostaria de aprender a mixar as músicas fazer set lists. Aceitei na hora, afinal aquilo me distrairia. No final das contas, a distração virou um hobby, que pouco depois virou um emprego. Parecia que eu tinha jeito para a coisa ou pelo menos foi o que o Rafa falou na primeira vez em que me levou a uma festa em que tinha sido contratado para tocar, e deixou que eu comandasse as picapes por meia hora. Ao final desse tempo, quando retomou o comando, várias pessoas apareceram para elogiar a sequência que ele tinha acabado de colocar. A minha sequência. E foi então que o Rafa perguntou se eu gostaria de ajudá-lo eventualmente.
A minha tia até achou bom no começo, pois, depois da separação dos meus pais, aquela era a primeira vez em que ela me via empolgada com alguma coisa. Logo depois, porém, começou a se preocupar, porque a cada dia eu ficava mais tempo ajudando o Rafa, que inclusive começou a me pagar pelas horas trabalhadas. Para mim aquilo era uma diversão, mas, para falar a verdade, o emprego não poderia ter vindo em hora melhor. Eu me recusava a aceitar qualquer coisa do meu pai. Ele continuava a pagar a mensalidade da escola, mas mais do que isso eu não queria. Portanto, foi bom começar a ganhar o meu próprio dinheiro. Também não queria explorar a minha tia, e a minha mãe, bem, ela estava muito longe naquele momento.
A tia Helena acabou concordando com o trabalho, desde que eu cumprisse três normas básicas:
- Eu só poderia trabalhar aos finais de semana.
- Precisava estar acompanhada de um adulto.
- Tinha que voltar para casa à meia-noite. Impreterivelmente.
Se eu violasse qualquer uma dessas regras, ela acabaria com aquela história, e eu voltaria à minha entediante vida normal.
Tudo estava dando certo até aquele momento. Eu só trabalhava às sextas e aos sábados, e estava sempre acompanhada por algum técnico de som conhecido, que ficava responsável pela sonorização do local, o Rafa chegava à meia-noite e assumia o comando, e eu ia embora para casa.
Mas aquele aniversário iria estragar tudo! O meu pai descobriria sobre o meu trabalho e nunca permitiria que eu bancasse a DJ novamente! Apesar de tudo, ele continuava me controlando, a distância. Mesmo que eu me recusasse a conversar, meu pai sempre dava um jeito de questionar a minha tia sobre as minhas notas e tudo mais. E ele era calculista; não tinha me obrigado a ir ao aniversário das enteadas em troca de uma conversa com a diretora? No mínimo pararia de pagar a escola caso eu insistisse em trabalhar como DJ. Não, ele não podia saber disso de jeito nenhum.
- Rafa, tem alguém para substituir a Cintia na festa de sexta? Ela tem um compromisso e não vai poder ir.
Interrompi as minhas divagações e comecei a prestar atenção à conversa da minha tia. Comecei a fazer sinal para que ela parasse de falar; se não explicasse a história direito, o Rafa ia pensar que o motivo era uma frescura qualquer e pararia de me contratar!
- Entendo... - A minha tia continuou a conversar sem prestar atenção em mim. - Mas será que ela não poderia passar as músicas para você mesmo tocar? A Cintia realmente tem um compromisso nessa sexta...
Sentei na frente dela, ansiosa para entender o que estava rolando. Depois de se despedir, ela desligou, com uma cara supercontrariada.
- Ele não vai poder se substituir, pois vai fazer o som de um casamento, e os outro DJs da empresa também já estão ocupados. Inclusive, quem vai assumir a música depois que você for embora é uma banda. O Rafa só topou fazer essa festa pelo fato de o contrato ter especificado que seria apenas até meia-noite e porque você disse que podia.
Fiquei olhando para ela, sem dizer nada por um tempo. Ela se sentou à mesa e começou a tamborilar os dedos. De repente, olhou para mim como se tivesse a solução para todos os problemas do mundo.
- Já sei! - Ela até se levantou. - A festa é à fantasia, não é? Então você vai à caráter!
- Tia, você não entendeu... - falei, desanimada. - Quem tem que ir fantasiada de princesa é a Cintia, porque o meu pai exigiu. Como DJ, tenho que estar lá apenas a trabalho! E o trabalho consiste só em colocar músicas e mais músicas para as princesas e os príncipes dançarem. Eu não sou da nobreza, faço parte da plebe e vou para trabalhar!
- Mas em nenhum lugar está escrito que você não pode ir de fantasia. Eles vão achara legal, afinal, até a DJ vai estar no clima da festa! Vou arrumar uma roupa de bobo da corte para você, que esconda todo o seu rosto... - Franzi a testa, mas, antes que eu reclamasse, ela continuou: - Não se preocupe, não vai ser um bobo da corte tradicional. Você vai ficar bonita, vou arrumar uma máscara veneziana que tape o seu rosto inteiro, exceto os olhos. Ninguém vai saber que é você!
Suspirei. E eu que pensava que aquele fim de semana seria normal. Tudo o que eu queria era chegar na festa sem conhecer ninguém e criar a atmosfera perfeita através da música. Eu me orgulhava de estar cada vez melhor naquilo. No começo das festas, conforme os convidados iam chegando, eu já sacava o estilo da maioria e o tipo de som que combinaria melhor com o ambiente. E então mandava ver. Sempre dava certo. As pessoas dançavam sem parar, pelo menos até meia-noite!
O Rafa de vez em quando me contava que, depois de eu ter ido embora, várias pessoas apareciam para perguntar aonde tinha ido a DJ que estava tocando músicas tão boas. Mas, em vez de ficar chateado ou de entrar em algum tipo de competição comigo, ele ficava feliz por mim e sempre me contava isso com um grande orgulho. Uma vez, inclusive, ele disse que, depois que eu fui embora de uma festa, um dos convidados, já meio bêbado, perguntou quem era a DJ fabulosa que tinha tocado, pois queria me cumprimentar. O Rafa disse que era a DJ Cintia Dorella, e que eu trabalhava apenas até meia-noite. Talvez por estar alcoolizado, ou por causa do meu toque de recolher, ele não entendeu o meu nome e falou: "DJ Cinderela?"
Rimos muito, e aquilo foi o suficiente para o apelido pegar entre nós.
Só que, na sexta-feira, a DJ Cinderela teria que trabalhar disfarçada...
- Cintia, a questão é que seu pai exigiu que você fosse à festa, mas não falou o horário - minha tia continuou.
- Tudo o que você tem que fazer, quando a tal banda começar a tocar, é correr para o banheiro e trocar de roupa. Então você aparece vestida de princesa um pouco depois da meia-noite. Seu pai vai ficar feliz e vai resolver o problema do celular do colégio. E ninguém vai desconfiar de nada.
Parecia simples nas palavras dela, mas eu sabia que não seria fácil assim. Por outro lado, se eu soubesse que seria tão difícil, nunca teria concordado com aquilo! Eu realmente não tinha a menor ideia do que me esperava...
Sentei na frente dela, ansiosa para entender o que estava rolando. Depois de se despedir, ela desligou, com uma cara supercontrariada.
- Ele não vai poder se substituir, pois vai fazer o som de um casamento, e os outro DJs da empresa também já estão ocupados. Inclusive, quem vai assumir a música depois que você for embora é uma banda. O Rafa só topou fazer essa festa pelo fato de o contrato ter especificado que seria apenas até meia-noite e porque você disse que podia.
Fiquei olhando para ela, sem dizer nada por um tempo. Ela se sentou à mesa e começou a tamborilar os dedos. De repente, olhou para mim como se tivesse a solução para todos os problemas do mundo.
- Já sei! - Ela até se levantou. - A festa é à fantasia, não é? Então você vai à caráter!
- Tia, você não entendeu... - falei, desanimada. - Quem tem que ir fantasiada de princesa é a Cintia, porque o meu pai exigiu. Como DJ, tenho que estar lá apenas a trabalho! E o trabalho consiste só em colocar músicas e mais músicas para as princesas e os príncipes dançarem. Eu não sou da nobreza, faço parte da plebe e vou para trabalhar!
- Mas em nenhum lugar está escrito que você não pode ir de fantasia. Eles vão achara legal, afinal, até a DJ vai estar no clima da festa! Vou arrumar uma roupa de bobo da corte para você, que esconda todo o seu rosto... - Franzi a testa, mas, antes que eu reclamasse, ela continuou: - Não se preocupe, não vai ser um bobo da corte tradicional. Você vai ficar bonita, vou arrumar uma máscara veneziana que tape o seu rosto inteiro, exceto os olhos. Ninguém vai saber que é você!
Suspirei. E eu que pensava que aquele fim de semana seria normal. Tudo o que eu queria era chegar na festa sem conhecer ninguém e criar a atmosfera perfeita através da música. Eu me orgulhava de estar cada vez melhor naquilo. No começo das festas, conforme os convidados iam chegando, eu já sacava o estilo da maioria e o tipo de som que combinaria melhor com o ambiente. E então mandava ver. Sempre dava certo. As pessoas dançavam sem parar, pelo menos até meia-noite!
O Rafa de vez em quando me contava que, depois de eu ter ido embora, várias pessoas apareciam para perguntar aonde tinha ido a DJ que estava tocando músicas tão boas. Mas, em vez de ficar chateado ou de entrar em algum tipo de competição comigo, ele ficava feliz por mim e sempre me contava isso com um grande orgulho. Uma vez, inclusive, ele disse que, depois que eu fui embora de uma festa, um dos convidados, já meio bêbado, perguntou quem era a DJ fabulosa que tinha tocado, pois queria me cumprimentar. O Rafa disse que era a DJ Cintia Dorella, e que eu trabalhava apenas até meia-noite. Talvez por estar alcoolizado, ou por causa do meu toque de recolher, ele não entendeu o meu nome e falou: "DJ Cinderela?"
Rimos muito, e aquilo foi o suficiente para o apelido pegar entre nós.
Só que, na sexta-feira, a DJ Cinderela teria que trabalhar disfarçada...
- Cintia, a questão é que seu pai exigiu que você fosse à festa, mas não falou o horário - minha tia continuou.
- Tudo o que você tem que fazer, quando a tal banda começar a tocar, é correr para o banheiro e trocar de roupa. Então você aparece vestida de princesa um pouco depois da meia-noite. Seu pai vai ficar feliz e vai resolver o problema do celular do colégio. E ninguém vai desconfiar de nada.
Parecia simples nas palavras dela, mas eu sabia que não seria fácil assim. Por outro lado, se eu soubesse que seria tão difícil, nunca teria concordado com aquilo! Eu realmente não tinha a menor ideia do que me esperava...
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