sábado, 2 de janeiro de 2016

Princesa Pop: Capítulo 3

    Um carro buzinando na rua fez com que eu voltasse para o presente. Estava mergulhada nos meus pensamentos, presa em uma viagem no tempo que nunca ia terminar. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes havia repassado aquela história na minha cabeça. Minha vida se dividia entre antes e depois daquele dia. Era impressionante como tudo havia mudado desde então...
   Nunca mais voltei àquele apartamento. A Lara, minha melhor amiga desde a infância, buscou o que pedi, o que não foi muita coisa, pois não queria nada que meu pai tivesse me dado (o que no fim das contas era quase tudo). Tomei as dores da minha mãe, como se tivesse sido eu a esposa traída. Mas no fundo era assim que eu me sentia. Meu pai não havia sido infiel com ela, apenas. Ele havia jogado fora a nossa família inteira.
   Era de se esperar que a minha mãe ficasse muito abalada, mas depois do choque inicial, de todos os gritos e lágrimas, ela simplesmente levantou a cabeça e não se permitiu mais ficar triste. Pelo menos não demonstrou. Contratou um advogado para lidar com a papelada do divórcio e mergulhou de cabeça no trabalho, ou seja, passou a viajar mais do que nunca. Ela até perguntou se eu gostaria de largar tudo e me aventurar com ela pelo país afora, mas acho que, com o choque, ela esqueceu o principal... Eu precisava me formar no colégio! No segundo ano do Ensino Médio, não é como se pudesse tirar um ano de folga e sair por aí, brincando de caixeiro viajante, por mais que aquilo fosse tudo o que eu quisesse fazer.
   No começo tudo correu bem, na medida do possível. Passei a morar na casa da minha tia Helena, que era para onde a minha mãe ia nos fins de semana de intervalo entre uma viagem e outra mas eu acreditava que aquilo seria uma ótima provisória. Imaginei que ela logo se recuperaria e viajaria apenas de vez em quando, como de costume. Na minha cabeça, era questão de tempo até que nós nos reestabelecêssemos e arrumássemos um novo apartamento... Por isso, quando ela recebeu um convite parar trabalhar no Japão durante três anos, foi meio que um choque para mim. Uma coisa era morar com a minha tia por um tempo. Outra completamente diferente era fazer daquele lugar a minha residência fixa.
   Não me entenda mal, eu adoro a minha tia. Ela é a irmã caçula da minha mãe - ou seja, nem é muito velha -, e a casa dela até que é legal. Só que é bem diferente daquilo com que eu estava acostumada. Tipo, o meu antigo apartamento era super clean, minimalista, e só se viam branco e metálico por todos os lados. Além disso, era bem espaçoso; a gente morava na cobertura. Já a casa da minha tia... Bem, digamos que até hoje encontro cores lá que eu nem sabia que existiam. Ela é desenhista e designer, trabalha com animação digital e é muito bagunceira. Por todos os lados vejo experimentos pela metade, propostas de esculturas, tintas misturadas... Além dos bichos, claro. Sim. A minha tia mora com cinco gatos, três cachorros, galinhas, pombos... e já até vi ratos. Quando apontei, gritando, ela me disse que não eram ratos e sim camundongos, e os chamou pelo nome. Depois disso, preferi não reclamar de mais nada, com medo de ferir os sentimentos dela, ou coisa parecida. Afinal, os bichos já moravam lá antes de mim.
   Dessa forma, eu nunca tinha pensado na casa dela como um lar definitivo, mas a minha mãe ficou tão empolgada com a história do Japão que eu nem tive coragem de mencionar aquilo. Ela merecia ficar feliz de verdade com alguma coisa, depois da decepção com o meu pai. Além do mais, onde eu estava morando nem era o maior dos meus problemas... Eu estava acostumada a ficar longe da minha mãe por um semana, duas, às vezes até três... Só que mais de um ano? não dava nem para imaginar!
   Depois que eu nasci, meus pais não quiseram ter mais filhos. Então a minha mãe sempre foi mais do que apenas "mãe" para mim - ela fazia o papel de irmã também... de amiga. Por isso ela mudar de país me abalou tanto: foi como se, do dia para a noite, eu tivesse perdido tudo. Minha família. Meu lar. Todas as coisas que eu achava que durariam para sempre.
   Minha mãe, antes da grande viagem, me fez prometer que tudo ficaria igual, na medida do possível. Estaríamos distantes uma da outra apenas fisicamente, mas ela fazia questão de ficar conversando comigo todos os dias para que a distância geográfica não se tornasse também uma distância emocional. Eu concordei, claro. Porém, naquela época não antevimos um pequeno detalhe... o fuso horário. O relógio do Japão está 12 hora à frente do nosso. Quando aqui são 9h, lá são 21h. A minha mãe trabalha pesquisando antigas ruínas em um sítio arqueológico que não tem cobertura de nenhuma operadora de celular, muito menos de internet. E é lá mesmo que ela mora, em uma espécie de acampamento. O único local por perto que tem qualquer vestígio de civilização é a vila aonde ela janta, sempre entre 21h e 22h. Ou seja, exatamente no horário que eu estou na escola, embora 12 horas atrás no fuso. Por isso, o que eu fazia todos os dias, assim que o sinal do recreio batia, era ligar para ela pelo Skype do meu celular. Então conversávamos por meia hora até que as aulas recomeçassem. Não tanto quanto eu gostaria, mas era o tempo suficiente para matar a saudade. Porém, agora, com a proibição do uso de celulares da escola, eu teria que falar com ela apenas aos finais de semana. E isso para mim era muito pouco...
   Isso me fez lembrar o motivo de eu estar com o telefone na mão. Eu teria que falar com o meu pai. Se havia alguém no mundo que poderia convencer a diretora a mudar de opinião e abrir uma exceção para mim, definitivamente a pessoa era ele. O meu pai era muito influente. Sua empresa tinha patrocinado a construção do ginásio de esportes e do laboratório de ciências da escola. Com certeza a direção não negaria uma simples solicitação dele. O único problema era mesmo era o fato de que eu teria que falar com ele. E para fazer um pedido, ainda por cima!
   O telefone começou a tocar na minha mão. Atendi no primeiro toque; não importava quem fosse, eu desligaria rapidamente, pois era melhor não adiar o inevitável. Se eu tinha que falar com o meu pai, era melhor fazer isso logo, para me livrar o quanto antes. Mas, ao atender, percebi que não precisava ter me preocupado. Destino, talvez? Simples coincidência? O fato é que a voz que falou comigo era a mesma que eu evitara por mais de um ano. A que definitivamente eu ainda não estava preparada para ouvir. A que, sempre que eu escutava, fazia questão de colocar o telefone no gancho. Mas daquela vez eu não desliguei.
   - Pai?
   - Cintia? - ele falou, meio assustado. - Filha, por favor, não desligue!
   Fiquei muda por alguns segundos. Eu não ia desligar, mas também não sabia como começar o assunto. Era incrível como eu me sentia tão mais distante dele - que morava na mesma cidade que eu - do que da minha mãe, que estava do outro lado do mundo.
   - Cintia, ainda está aí?
   Suspirei antes de responder.
   Sim. Estou. Foi bom você ter ligado. Eu precisava mesmo falar com você.
   - Jura, minha filha? - Dessa vez, além de surpreso, ele pareceu também aliviado e feliz. - Você vai voltar pra casa? Esperei tanto por esse momento!
   - Não é nada disso! - interrompi depressa.
   Sou mesmo uma banana! Apesar de tudo o que ele fez, senti certa pena pela empolgação que demonstrou ao pensar que eu tinha mudado de ideia. Resolvi dizer logo o que eu queria.
   - Eu não vou voltar. Só queria falar com você porque estou com um problema no colégio. Não tem nada a ver com as minhas notas. É que... Bem, a diretora proibiu o uso dos celulares, mas é o único horário que posso falar com a minha mãe... Claro que não faço isso durante as aulas, nunca fiz, mas é que a gente conversa todos os dias na hora do recreio. Se a diretora quiser, pode até guardar o meu telefone no restante do tempo, mas é que realmente preciso falar com a minha mãe, e essa é a única hora que posso, por causa do fuso...
   Ele limpou a garganta e falou:
   - Bom, não vejam motivo para que não permitam isso. Não é como se você quisesse usar o celular para brincar no Twitter ou no Facebook.
   Era exatamente o que eu tinha pensado... Ele era tão parecido comigo! Por que tinha que ter feito aquilo? Eu realmente gostava de termos as mesmas opiniões. Quero dizer, na época em que ainda conversávamos...
   - Cintia - continuou ele -, vou falar sobre isso com a diretora. Mas estou ligando por causa de um assunto mais importante.
   Mais importante para quem?
   - Sexta-feira é o aniversário das suas irmãs - ele começou a explicar.
   - Elas não são minhas irmãs! - interrompi. - Eu não tenho irmã nenhuma, como você deve se lembrar.
   Ele pareceu meio impaciente, me ignorou e continuou a explicação.
   - A festa de 15 anos da Gisele e da Graziele é na próxima sexta-feira, como você deve saber, pois eu enviei o convite há mais de um mês. Bem, o caso é que eu gostaria muito que você fosse. Todos os meus amigos estarão lá e sei que, se você não for, muita gente vai comentar... Mas não é só por isso. Se você for, acho que isso pode marcar um recomeço, uma trégua para nós. Eu quero muito que você aceite a sua nova família. E sei que sua madrasta e sua irmãs iam gostar que isso acontecesse também...
   Eu já ia dizer que não estava interessada e que, pela última vez, elas não eram minhas irmãs, mas que diferença ia fazer? Ele que desse para elas o título que quisesse! Eu só queria desligar depressa; afinal, já tinha pedido o que precisava. Mas ouvir meu pai chamar aquelas garotas assim mais uma vez me deixou com vontade de colocar o telefone no gancho e não falar com ele nunca mais!
   O fato é que, depois da traição, imaginei que o meu pai fosse correr atrás da minha mãe pelo resto da vida, chorar, implorar, e nunca mais olhar para a cara daquela outra mulher. Ele até fez isso, tipo, por uns dois dias. Mas, quando viu que a minha mãe não estava mesmo disposta a perdoá-lo, ele simplesmente convidou aquela bruxa para morar com ele! Pior... Não foi só ela, mas também suas duas filhas gêmeas, adolescentes! Para morarem com ele no meu apartamento! Tudo bem que eu não ia lá desde aquele dia fatídico, mas ainda assim... Eu havia crescido ali! Tinha sido naquele lugar que os meus pais haviam vivido lindos anos, até aquela idiota estragar tudo! E agora o meu pai estava praticamente casado com ela, apenas esperando pelos papéis do divórcio para poder formalizar legalmente o enlace. Mas o pior nem era isso... Ele estava tratando as garotas como se também fossem filhas dele. E, como se não bastasse, ainda as havia matriculado na minha escola. Eu tinha que olhar para a cara delas todos os dias, o que inevitavelmente me fazia lembrar de que, por causa da mãe delas, a minha vida tinha mudado tanto.
   - E se eu não for? - perguntei só por perguntar. Eu não iria àquela festa nem se fosse a última do mundo. Além do mais, mesmo que quisesse, não poderia. Eu já tinha outro compromisso para aquela noite.
   Ele ficou calado por um tempo e, quando falou de novo, estava com a voz bem mais seca:
   - Se você não for, eu me recuso a resolver o seu probleminha... Não vou conversar com a sua diretora. Pense bem, Cintia. Não custa nada você ir a essa festa e ficar lá por um tempo! Você já tem 17 anos, está na hora de crescer um pouco. Não pode continuar a me desculpar eternamente... Eu já pedi desculpas, e você sabe que me arrependi! Mas eu segui em frente, a sua mãe também, e acho que passou da hora de você fazer o mesmo. Estou cansado dessa situação. Portanto, ou você vá à festa, ou fica sem celular na escola. A escolha é sua.
   Fiquei calada, mais uma vez com vontade de desligar na cara dele, mas eu conhecia o meu pai o suficiente para saber que estava falando sério.
   Ele percebeu que tinha me pego, pois, antes de desligar, tudo o que disse foi:
   - Nada de jeans e tênis. Parece que festas de 15 anos temáticas estão na moda, e o tema que suas irmãs escolheram foi "Baile na Corte". Acho que ficaram meio impressionadas com o casamento daquele príncipe da Inglaterra, não falam de outra coisa há meses. Mas o fato é que quero você vestida de donzela e não como um moleque. Compre o que precisar e mande a conta para o meu escritório.
   E, em seguida, desligou.


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