sábado, 16 de janeiro de 2016

Princesa pop: capítulo 8

   No dia seguinte, todos os jornais e revistas noticiaram que pelo visto o príncipe das adolescentes, o famoso Fredy Prince, havia conhecido uma princesa. O que ele tinha postado no Twitter foi reproduzido incessantemente pela mídia, e percebi que ele não parava de ser interrogado a respeito. O Fredy demorou um pouco para se manifestar, mas então deu uma declaração dizendo que aquilo não tinha a proporção que as pessoas queriam que tivesse, pois apenas havia conhecido uma garota diferente. Segundo ele, a tal menina era só alguém com quem ele gostaria de ter tido mais tempo para conversar, porque, pelo pouco contato que os dois tiveram, deu para perceber que era alguém especial. Alguém de quem ele gostaria de ser amigo. Alguém que parecia ter os mesmos gostos e opiniões que ele. Alguém que ele gostaria de conhecer melhor... Mas ele também sabia que a menina dificilmente iria se manifestar sob tantos holofotes, pois parecia ser muito discreta. E, dizendo isso, pediu para que dessem espaço para que a garota se sentisse à vontade para aparecer.
   Aquilo só atiçou ainda mais os repórteres, que não paravam de escrever manchetes sensacionalistas como "Príncipe solitário procura princesa misteriosa" ou "Quem será a dona do sapatinho que roubou o coração do solteiro mais cobiçado do país?", entre outras parecidas.
   Toda aquela situação fez com que eu experimentasse sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que eu estava meio com raiva por ele ter feito o maior escarcéu sobre aquilo, eu sabia que aquilo tinha sido a única forma que havia encontrado de chamar a minha atenção. De que outro jeito poderia entrar em contato comigo? Agora eu sabia bem que a minha madrasta nunca passaria o telefone da empresa de som da festa das filhas.
   Mas, mais do que tudo, ao ler as palavras dele, não pude deixar de me identificar. Eu também queria ter tido tempo de conhecê-lo melhor... para que me convencesse ainda mais de que ele não era nada do que eu havia pensado. Agora que eu sabia que não era fingimento, havia começado a ouvir as suas músicas com mais atenção, a ler as entrevistas com outros olhos e, com isso, a descobrir que ele era uma pessoa normal, com sentimentos, planos e desilusões... Era exatamente como o garoto dos sonhos que eu costumava ter, o garoto que eu imaginava estar em algum lugar do mundo, esperando só por mim, mas que acabei esquecendo, depois de tudo que eu passei com a separação dos meus pais.
   A minha tia, após dizer umas mil vezes que eu estava diferente, acabou arrancando a informação de mim, e, assim que contei, foi como se aquele sentimento que eu estivera escondendo até de mim mesma estava desabrochando. Comecei a sentir alegria e tristeza alternadamente. Eu estava feliz por ele ter sentido o mesmo que eu, aquela afinidade à primeira vista, mas também desconsolada, por saber que aquilo ficaria assim, na lembrança do nosso curto primeiro encontro. Eu queria encontrá-lo novamente, para que ele pudesse provar que eu devia deixar cair o resto da muralha que havia construído em volta do meu coração.
   A minha tia Helena adorou a notícia e tentou me convencer a todo custo a ir ao tal show no Castelo do Rock, mesmo sendo em uma quinta-feira. A minha tia possuía regras rígidas sobre sair em dias úteis, mas naquele caso ela nem pareceu se importar. Por mais que ela insistisse, porém, e sabia que não podia comparecer. Tinha certeza de que a imprensa estaria em peso no local e eu não teria como conversar com o Frederico (sim, para mim ele continuava a ser aquele garoto da máscara e não o pop star Fredy Prince) sem ser fotografada. Além disso, iria fazer as filhas da minha madrasta passarem vergonha ao mostrar o sapato errado, e, se elas vissem por perto, eu correria certo risco de vida...
   Definitivamente eu não ia passar nem perto daquele local. Mas, se eu tinha certeza disso, por que aquele aperto no meu peito não passava?
   A imprensa e as pessoas continuaram a falar sobre o assunto, e o nome "Fredy Prince" não saí dos  Trending Topics do Twitter nem por um segundo. os programas de televisão sensacionalistas não paravam de respeito e em um deles, inclusive, presenciei uma entrevista das minhas meias-irmãs, contando que havia sido na festa delas que o príncipe conhecera a tal princesa, e que o país inteiro teria uma surpresa no Castelo do Rock. Eu sabia perfeitamente que a "suposta" surpresa era que uma delas seria a garota misteriosa, mas elas não tinham nem ideia que a surpresa maior seria extamente delas, quando mostrassem o sapato errado...
   Para piorar ainda mais, no dia do show ele postou uma nota em sua página do Facebook.

   Sei que você deve estar assustada e inibida, e vou entender perfeitamente caso na apareça. Mas eu gostaria muito de ver você de novo. Os seus olhos e sua voz não saíram da minha cabeça desde aquela noite. E também o seu jeito de dançar. Quero tanto saber mais sobre você... Por algum motivo inexplicável, acho que tivemos uma sintonia naquela noite. Será que você sentiu o mesmo? Espero que venha me contar.

   Depois de ler aquilo, não tive como não me render. Não importava mais se eu fosse largar o trabalho. O meu pai podia até a me obrigar a fazer isso, mas eu não podia mais mentir para mim mesma; o fato é que não me sentia feliz assim havia muito, muito tempo. E aquela felicidade aplacaria um pouco a tristeza por ter que deixar de ser DJ.
   Deixei que a minha tia Helena me embelezasse novamente. Por mais que quisesse que eu colocasse um vestidinho, vesti uma calça jeans, mas permiti que ela arrumasse o meu cabelo e me maquiasse, embora só um pouquinho. Por mais que achasse que ele fosse se decepcionar, eu queria que daquela vez ele me encontrasse como eu realmente era. Sem nenhuma máscara.
   Ao chegar ao local, notei que as minhas mãos estavam suando. Ainda bem que a Lara tinha concordado em ir comigo, porque certamente eu teria dado meia-volta se a minha melhor amiga não estivesse por perto para me dar um empurrãozinho.
   O espaço estava lotado de garotas. Pude notar que a maioria estava com sapatos na mão, e alguns realmente pareciam de cristal! Onde elas tinha arrumado aquilo? Na loja da Disney? O que ninguém podia imaginar era que o verdadeiro "sapatinho" estava no meu pé. Eu estava torcendo para que, no escuro, ninguém percebesse que eu estava com dois All Stars diferentes. No é esquerdo, um simples, preto, sem nenhuma pintura. Mas no direito... era exatamente o par daquele que possivelmente ele estava segurando naquele momento.
   Em um canto, notei que um DJ estava colocando músicas bem animadas, preparando o clima para o show. Eu o reconheci e fui cumprimentá-lo, e ele perguntou se eu não gostaria de "trabalhar" um pouquinho. Ri e falei que estava de folga naquela noite, mas as picapes eram tão irresistíveis que acabei fazendo um pequeno looping na música que estava tocando.
   Quando o Castelo do rock ficou bem cheio, praticamente sem espaço para ninguém se mover, o show começou. Daquela vez eu já sabia o que veria, mas, mesmo assim, o meu coração disparou. Se eu ainda tinha alguma dúvida de que estava gostando daquele menino, naquele momento não havia mais nenhuma. Foi olhar para o palco e tive certeza. Não me importava mais se ele iria me iludir, me enganar ou me fazer sofrer, porque sentimento maior seria abafar aquele sentimento.
   Fomos para um lugar mais afastado, onde poderíamos assistir o show de cima, e fiquei tão envolvida que nem vi o tempo passar. Quando dei por mim, ele já estava se despedindo da plateia e o som da banda foi substituído novamente pelo de DJ.
   - Ci, acho melhor a gente conversar com aqueles seguranças que estão ali perto do palco e explicar que você é a garota que o Fredy está esperando... Ele não vai ser doido de vir aqui! Esse lugar está tão cheio que o garoto acabaria sufocando por essa mulherada toda. Acho que é melhor você conversar com ele lá dentro.
   Concordei, mas, ao chegarmos perto do palco, vi que não seria nada fácil; parecia que todas as garotas haviam tido a mesma ideia, e uma fila gigante estava se formando.
   De repente o som foi interrompido e o assessor da banda foi até o microfone.
   - Atenção, garotas. Nada de tumulto. Peço a todas que estão com o suposto sapato que o Fredy Prince está procurando para ficarem com ele em mãos. Passaremos pela fila filmando todas vocês com transmissão direta para o camarim. No momento em que encontrar o sapato certo, o Fredy nos dará um sinal, e então levaremos a moça até ele.
   No mesmo instante apareceu um rapaz segurando uma filmadora, e o barulho se tornou ensurdecedor. Muitas meninas estavam indignadas, pois pensaram que teriam a chance de falar com o Fredy. Outras tantas começaram a argumentar que poderia haver muitos sapatos iguais, e algumas ficavam indagando sobre como ele teria certeza se não visse o sapato de perto. No meio disso tudo, notei a minha madrasta emergindo na multidão com as filhas a tiracolo e indo para frente de todo mundo, sem o menor pudor de furar a fila. Houve um grande bate-boca, que foi logo interrompido pela voz do assessor.
   - Meninas, peço que aguardem só mais um momento, pois, antes da filmagem dos sapatos, o Fredy Prince receberá as donas da festa em que tudo isso começou. Ele espera que elas tenham alguma pista sobre quem ele procura. Para comprovar que é apenas isso, que não estamos protegendo ninguém, vamos filmar o encontro delas com o Fredy e simultaneamente transmiti-lo no telão.
   Em seguida elas foram escoltadas através de uma porta lateral, com uma expressão de triunfo, como se em poucos segundos fossem ser coroadas. As três mal tinham entrado no camarim, e a imagem delas apareceu na grande tela que ficava atrás do palco. Eu já sabia o que ia acontecer, mas comecei a ficar desesperada. Pensei que o mico que pagariam seria apenas na frente do Fredy, e não da festa inteira...
   - Lara, vamos embora? - perguntei. - Vai dar problema. Vamos sair daqui enquanto é tempo!
   - E perder o melhor da festa? - ela falou com os olhos fixos no telão. - Nunca! Estou mais ansiosa em ver isso do que o último capítulo da novela!
   Suspirei e esperei pelo pior.
   As três entraram no camarim, e no mesmo instante o Frederico perguntou se elas tinham encontrado o telefone da empresa que fizera o som da festa. Senti um aperto no peito por constatar que ele parecia muito ansioso, e também por ter certeza que ele nunca receberia aquela resposta.
   Eu estava certa. A minha madrasta, em vez de responder, mostrou a minha sandália cor-de-rosa, visivelmente satisfeita, crente que, no segundo seguinte, ele a chamaria de sogra ou algo assim... Mas ele ficou parado, esperando. Ela então começou a explicar que, como as filhas eram gêmeas, não sabiam exatamente a qual delas a sandália pertencia, pois ambas tinham "brincado de DJ" no aniversário e também ficado descalças no final da festa, por estarem com os pés inchados de tanto dançar. Então qualquer uma das duas podia ter perdido o outro pé da sandália. Mas ele podia escolher a que preferisse, pois não existia rivalidade entre as irmãs.
   Senti tanta vergonha por ela! Será que ela não ficava nem um pouco constrangida por oferecer as filhas assim, como se fossem doces uma bandeja? Mas as duas pareciam bem satisfeitas com a oferta da mãe; na verdade, pareciam se sentir honradas.
   - Lara, vamos embora! - pedi mais uma vez.
   Eu realmente não queria ver aquilo. A minha amiga nem se moveu. Parecia hipnotizada pela tela. Só me restou assistir também.
   O Fredy pegou a sandália, meio a contragosto, pois tinha praticamente sido jogada na mão dele, deu uma breve analisada e logo falou:
   - Acho que houve algum engano. Mas obrigado pela presença.
   Os seguranças começaram a direcioná-las para a saída, mas elas pareciam dispostas a continuar ali.
   - Mas é esse o sapato que você está procurando! - a minha madrasta meio que gritou. - Eu sei que é! Foi na festa das minha filhas que você encontrou o outro. Aliás, onde ele está? Precisamos formar o par!
   - Minha senhora - um segurança indicou a porta -, ele já falou que não é esse sapato. Pode nos dar licença, por favor? A fila está muito grande, e não queremos deixar as outras meninas esperando.
   - Mas ela me garantiu que era esse! - ela gritou , enquanto o segurança praticamente a empurrava para fora e uma vaia gigantesca se propagava pelo local. - Ela vai me pagar muito caro!
   Ops. Eu sabia que estava falando de mim. E a fúria que vi no rosto dela, poucos segundos antes de o telão congelar na imagem do Fredy, me deu arrepios. Até que a Lara estava com a expressão meio assustada. Por isso, insisti mais uma vez que a gente fosse embora.
   - De jeito nenhum! - ela respondeu. - Agora é que você tem que entrar naquela fila para esfregar no rosto da sua madrasta que ela não manda em você!
   - Você não entende... Ela vai querer se vingar! Não vai se contentar em apenas contar para o meu pai sobre o meu trabalho de DJ.
   A Lara apenas deu de ombros e falou que, além daquilo, não tinha nada mais que ela pudesse fazer para me prejudicar. Mesmo sem ter certeza de que concordava, entrei na fila. Poucos minutos depois o meu celular tocou, com um número desconhecido.
   - Não atende! - a Lara gritou, um pouco tarde demais. Eu já tinha falado alô. E a voz que ouvi em seguida poderia realmente ganhar um prêmio de voz mais horripilante do mundo.
   - Você está se achando muito esperta, não é? - Dava para ouvir os dentes dela trincando enquanto falava. - Sei perfeitamente que está rindo da minha cara em algum lugar dessa fila... Mas vou te dar um aviso: Se eu ligar a internet amanhã e ler em algum lugar que o Fredy Prince encontrou a dona do sapato, você vai perder tudo que ainda te resta. A escolha é sua!
   Ela desligou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Fiquei alguns segundos ainda com o telefone com a orelha, ouvindo a ameaça ecoar na minha cabeça. Não sabia o que a minha madrasta poderia fazer, mas tinha certeza de que arranjaria alguma coisa, inventaria a pior forma possível de se vingar... E já tinha perdido meu pai e a minha mãe. E agora, se mostrasse o meu tênis para o Frederico, ele sorriria, nós conversaríamos, eu ficaria ainda mais apaixonada, e, no dia seguinte, ele também seria arrancado.
   Não. Eu preferia não conhecer aquela felicidade a ter que perdê-la depois.
   Por isso, ignorando os gritos da Lara para que eu não saísse do lugar, simplesmente me virei. Dei uma última olhada para o rosto do Frederico, congelado no telão, segurei uma lágrima que ameaçou a sair e fui em direção à saída.
   

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