terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Princesa pop: capítulo 12

   - Cintia! Acorde, querida! A gente não pode demorar!
   Não sei quanto tempo se passara; talvez fossem poucos minutos, mas que para mim pareceram horas. De tanto chorar, acabei adormecendo. E, no melhor dos meus sonhos, ouvia a voz da minha mãe dizendo que dali para frente tudo iria ficar bem. De repente percebi que aquela voz não estava dentro da minha cabeça. Estava do lado de fora. Abri os olhos depressa e tive que esfregá-los várias vezes para entender que realmente não estava delirando.
   - Mãe! - Eu me atirei nos braços dela. - O que você está fazendo aqui? Como você veio? De onde surgiu?
   Eu realmente não podia entender. Ela não devia estar no Japão?
   A minha mãe começou a rir da minha confusão, me abraçou bem forte e falou enquanto beijava o topo da minha cabeça:
   - Eu vim de avião. E do aeroporto, direto pra cá, pois liguei para a sua tia, e ela disse que você ainda não tinha aparecido na festa, apesar de o seu pai já estar lá, com a nova família. Ao chegar aqui, toquei o interfone várias vezes e, como ninguém atendeu, tive que forçar a entrada... Eu estava tão preocupada, minha filha!
   - Você arrombou a porta? - Olhei para ela, meio rindo. Eu sabia que a minha mãe seria capaz daquilo.
   - Não precisei. - Ela também riu, me abraçando mais uma vez. - Ainda tenho a minha chave. No dia que fui embora deste apartamento, o seu pai não quis ficar com ela, pois achava que uma hora eu iria voltar. Pensei em jogá-la fora várias vezes, mas acho que a minha intuição me avisou que um dia ela poderia ser útil.
   Suspirei olhando para ela, tentando nem piscar muito. Aquilo era muito bom para ser real. Eu tinha medo que ela pudesse sumir se eu fechasse os olhos por muito tempo.
   - Mas... e o seu trabalho? - perguntei baixinho. - Você não estava no meio de uma pesquisa importante?
   Ela passou a mão pelo meu rosto, e vi que os seus olhos estavam marejados.
   - Nenhuma expedição arqueológica tem mais importância do que essa missão aqui. Havia algo muito mais valioso que eu precisava resgatar...
   Eu a abracei uma vez mais, e então ela falou:
   - Filha, eu ficaria conversando com você a noite inteira, mas realmente estamos com pressa.
   - Sim, vamos sair daqui depressa, antes que eles voltem! - falei, enfiando as roupas de qualquer jeito na mala. - Não vejo a hora de voltar para a casa da tia Helena...
   - Mas não é para a casa da sua tia que nós vamos! - Ela segurou as minhas mãos. - Pelo que sei, tem um certo príncipe esperando por você em um baile...
    Balancei a cabeça e suspirei. Mostrei para ela o meu vestido furado e expliquei para ela que eu não tinha mais roupa para ir. Além do mais, estava com rosto todo vermelho, por ter dormido chorando, e o cabelo desgrenhado.
   - Nada que um banho não resolva - ela disse, remexendo dentro da bolsa. - E tenho um creme japonês aqui que vai dar um jeito nesses olhos inchados. E quanto à roupa... - Ela começou a olhar em volta e de repente seu rosto se iluminou. Foi até o baú, o mesmo que eu tinha ficado com medo de abrir, e começou a tirar de dentro dele várias toalhas, roupas e fotos antigas, até que...
   - Aqui está! - ela disse, estendendo para mim um vestido que eu conhecia muito bem. Era o vestido da minha festa de 15 anos, que havia sido feito especialmente para eu dançar a valsa com o meu pai. Tinha um corpete justo, que seguia exatamente o contorno do meu corpo até chegar à cintura, e então se abria delicadamente em uma saia de tafetá, com várias camadas de tule por cima, até o chão. Lembro que, da primeira vez que o vi, pensei que ele tinha cor de sonho.
   - Eu sabia que estava em algum lugar - minha mãe explicou, enquanto analisava o vestido. - Quando você disse que queria que eu desse todas as suas roupas, pois passaria a usar só preto, não tive coragem de me desfazer dele. E então eu o escondi aqui, porque tinha certeza de que algum dia você gostaria de vê-lo novamente. Está meio amassado, mas acho que posso dar um jeitinho...
   Fiquei olhando para aquele vestido sem saber se devia mesmo usá-lo. Ele me lembrava de uma época maravilhosa da minha vida, antes de o meu mundo desmoronar.
   Minha mãe, percebendo a minha dúvida, colocou a mão na cintura e falou:
   - Anda, menina! Corre logo pro banho enquanto eu faço uma mágica com esse vestido! Vou colocá-lo na secadora de roupas, para tirar o cheiro de guardado, e vou dar uma passadinha também. Garanto que ele vai ficar como novo! O tal do Fredy Prince e todos os outros garotos da festa vão ficar loucos por você!
   Não sei se pela empolgação da minha mãe ou por ouvir o nome dele, realmente fiz o que ela mandou.
   Meia hora depois, ao olhar no espelho, mal me reconheci. Além de a minha mãe ter feito um milagre com o meu vestido e cabelo, o creme que ela me emprestou realmente era eficiente e ninguém diria que eu havia chorado para valer. Mas tinha algo mais... Eu tinha um brilho no olhar que não estava ali antes.
   - Você está tão linda... - minha mãe disse, chegando por trás de mim e também me admirando no espelho. - Essa carinha de apaixonada, de quem vai ver o namorado daqui a pouco, combinou perfeitamente com o vestido...
   - Mãe... - Eu balancei a cabeça, sem graça. - Ele não é meu namorado!
   - Ainda não... - ela disse, sorrindo. - E agora, chega de se admirar! Vamos logo! A festa já deve estar bombando! Você vai chegar no auge e se tornar o centro de todas as atenções!
   Eu não tinha a menor intenção de fazer isso. Só precisava da atenção de uma pessoa. Mas, para isso, eu realmente precisava chegar lá depressa. Antes de o show começar...
 

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